Jesus Cristo é a própria Boa-Nova, o Evangelho vivo. Ele veio para que “todos tenham vida e a tenham plenamente” (Jo 10,10) e a Igreja continua sua presença e ação no mundo, sempre a serviço da vida.
Dom Oriolo – Bispo da Igreja Particular de Leopoldina MG
A Igreja tem a missão de evangelizar. Desde o seu início, ela reconhece a necessidade de anunciar a Boa-Nova, conforme a ordem de Jesus: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16,15). Ela sempre se preocupou em responder a esta nobilíssima vocação de ser portadora da Boa-Nova e sacramento universal de salvação (cf. LG, n.48)
Jesus Cristo é a própria Boa-Nova, o Evangelho vivo. Ele veio para que “todos tenham vida e a tenham plenamente” (Jo 10,10) e a Igreja continua sua presença e ação no mundo, sempre a serviço da vida. Os documentos Redemptoris Missio (cf. n.21) e Evangelii Gaudium (cf. n.19) afirmam que a evangelização ocorre em obediência ao mandato missionário e que o Espírito Santo confere força aos apóstolos para levar a Boa-Nova.
Atualmente, a Inteligência Artificial (IA), generativa, preditiva, conversacional e analítica, está transformando profundamente a maneira como interagimos com o mundo, com as pessoas, com Deus e, principalmente, com as informações e o conhecimento. Sua incorporação à vida cotidiana ocorre em uma velocidade que desafia nossa capacidade de reflexão profunda e compreensão crítica, nem sempre acompanhada de uma formação filosófica, ética e humanística capaz de orientar seu desenvolvimento e sua utilização.
Diante desse cenário, a IA passa a exercer influência crescente em diferentes dimensões da existência humana, como no mundo jurídico, na fé, na medicina, na psicologia, no mercado de trabalho, nas relações interpessoais etc. Sua presença suscita, por um lado, incertezas quanto ao porvir das relações sociais, da autonomia humana e dos valores que solidificam a vida em sociedade; por outro, oferece possibilidades inéditas de inovação, tecnologia e pesquisa. O desafio consiste em compreender como essas transformações podem contribuir para a construção de uma Sociedade 5.0, na qual a tecnologia esteja a serviço das pessoas, sem comprometer sua dignidade.
É nesse horizonte que surge a provocação expressa no título “É Possível Evangelizar sem Evangelizadores?”. Quando uma máquina dialoga conosco, emprega palavras adequadas, simula empatia, reconhece nossas perguntas e oferece respostas capazes de despertar confiança e afinidade, estabelece-se uma forma de interação que pode influenciar nossas percepções, decisões e até mesmo nossa busca por sentido.
Em abril de 2025, Adam Raine, de dezesseis anos, na Califórnia, tirou a própria vida, após meses de confidenciar a um sistema de IA generativa. No processo judicial que seus pais moveram contra OpenAI, argumentaram que o sistema havia se tornado seu “confidente mais próximo” e, em última instância, seu “instigador do suicídio”. Um sistema de IA generativa tornou-se um interlocutor crucial por meio do qual um jovem interpretou seu sofrimento e caminhou rumo a uma decisão fatal.
No entanto, se a IA passa a atuar como interlocutora em questões existenciais e religiosas, inclusive naquelas relacionadas à fé e à experiência cristã de Deus, torna-se necessário questionar: até que ponto essas tecnologias podem contribuir para o anúncio da Boa-Nova do Evangelho? A questão central não é apenas se podemos evangelizar por meio das máquinas, mas o que significa evangelizar quando a tecnologia assume parte da comunicação da fé, sem substituir a presença, o discernimento e a responsabilidade dos evangelizadores humanos.
O critério fundamental para discernir o uso da IA na missão evangelizadora não é a busca por meio de engajamento, mas sim o tipo de engajamento que ela provoca. Trata-se de gerar uma interação capaz de conduzir à verdadeira conversão: aquela que, respeitando a dignidade humana e a verdade do Evangelho, amplia o anúncio da Boa-Nova, favorece o encontro pessoal com Cristo e alimenta a comunhão eclesial, sem jamais substituir o testemunho e a presença viva dos evangelizadores.
Como a IA transforma nossas formas de aprender, ensinar, dialogar e acessar o conhecimento, podemos utilizá-la para renovar as práticas evangelizadoras, desde que permaneça a serviço da missão da Igreja, fundamentada na Palavra, no Mistério Pascal e na vida sacramental. Nessa perspectiva, a reflexão de São Paulo VI sobre a centralidade da Palavra e do Mistério Pascal (cf. EN, n. 42-47) e as orientações das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil/2026-2032 (cf. Objetivo Geral) devem iluminar o discernimento sobre as possibilidades e os limites dessas tecnologias.
Entretanto, a proposta de evangelizar sem evangelizadores deve ser compreendida na perspectiva do processamento de dados, conforme nos ensina o papa Leão XIV ao afirmar que esses sistemas imitam algumas funções da inteligência humana. Ao fazê-lo, muitas vezes a superam em velocidade e capacidade de cálculo, oferecendo benefícios concretos em numerosos campos. No entanto, esse poder permanece exclusivamente ligado ao processamento de dados: as chamadas inteligências artificiais não vivenciam experiências, não possuem um corpo, não experimentam a felicidade e a dor, nem amadurecem na compreensão do amor, do trabalho, da amizade e da responsabilidade (cf. MH, n. 99).
As inteligências artificiais tampouco possuem consciência ética: não julgam o bem e o mal, não apreendem o sentido último das situações, nem assumem o peso de suas consequências. Podem imitar linguagens, comportamentos e avaliações, bem como simular empatia ou compreensão, mas não compreendem verdadeiramente aquilo que produzem, pois não penetram o horizonte afetivo, relacional e espiritual no qual o ser humano desenvolve a sabedoria (cf. MH, n. 99).
Portanto, que a provocação do título “É Possível Evangelizar sem Evangelizadores?” nos faça lembrar da exortação de Paulo: “Tudo é permitido, mas nem tudo convém” (1 Cor, 6,12; 10,23).

