A Inteligência Artificial transforma nosso cotidiano, mas a neutralidade dos algoritmos não substitui a consciência humana. Como alerta o papa Leão XIV, o avanço tecnológico exige uma gestão ética voltada para o bem comum e para a dignidade.
Dom Oriolo – Bispo da Igreja Particular de Leopoldina MG
A Inteligência Artificial (IA) já faz parte da vida e do cotidiano das pessoas, criadas à imagem e semelhança de Deus, mesmo quando não percebemos. A todo momento estamos conectados com máquinas inteligentes, utilizando esses sistemas em aplicativos para compra, venda, informação, orientação, conhecimento, em redes sociais, plataformas digitais e em serviços públicos.
Os algoritmos influenciam escolhas, organizam informações e interferem no modo como nos comunicamos e compreendemos o mundo. O papa Leão demonstra preocupação da Igreja com os impactos sociais e culturais da IA, especialmente quanto à necessidade de preservar a dignidade humana, diante do avanço tecnológico (cf. Encontro do Papa com Líderes de Tecnologia, no Vaticano, em 21/06/2025).
No entanto, com o ligeiro avanço da tecnologia cresce também a preocupação com suas consequências éticas e sociais. Os sistemas de IA são desenvolvidos para tomar decisões a partir de dados e padrões previamente definidos. Apesar de sua capacidade de aprendizado, eles não possuem consciência ética e nem compreensão humana sobre o que é justo, correto ou ético.
A IA é vista com uma extensão das ações humanas, logo, os seus criadores, proprietários e operadores, não podem furtar-se à responsabilidade. Na mensagem do papa Leão XIV para a cúpula da Inteligência Artificial para o Bem, em Genebra, reunida entre 7 a 11 de julho de 2025, ele mencionou que a IA “requer, portanto, uma gestão ética adequada e quadros regulamentares centrados na pessoa humana, que vão além dos meros critérios de utilidade ou eficiência”.
Destarte, a responsabilidade pelo uso da IA não pode ser atribuída às máquinas, dada a sua limitação em relação ao ser humano, mas sim às pessoas e empresas que desenvolvem, programam, administram e utilizam essas tecnologias. A IA deve ser entendida como uma extensão das ações humanas e, consequentemente, precisa estar orientada por valores éticos e pelo compromisso com o bem comum. Afinal, quando utilizada de forma ética, ela se mostra capaz de automatizar tarefas, prever comportamentos e auxiliar em estudos e tomadas de decisões complexas.
No entanto, quando utilizada de forma responsável, a IA pode trazer inúmeros benefícios para a sociedade. Ela auxilia em pesquisas cientificas, otimiza processos, contribui para diagnósticos médicos, amplia o acesso à informação e facilita a realização de tarefas complexas. O desenvolvimento tecnológico precisa caminhar junto com reflexões morais.
Construir IA ética não significa tornar a IA perfeita, mas sim orientá-la para diretrizes que reduzem danos e maximizem benefícios compartilhados. Espera-se que sistemas algorítmicos sejam seguros e justos eticamente. A ética fornece o norte para usarmos as inovações da IA sem perder de vista aquilo que nos torna humanos.
Avaliar os impactos éticos de um sistema de IA é uma tarefa complexa. Muitas vezes, identificar vieses presentes em um algoritmo exige análises detalhadas e um acompanhamento contínuo do funcionamento dessas tecnologias. As decisões produzidas por algoritmos costumam transmitir uma aparência de neutralidade, apenas porque são baseadas em cálculos matemáticos.
Concluindo, a Inteligência Artificial transforma nosso cotidiano, mas a neutralidade dos algoritmos não substitui a consciência humana. Como alerta o papa Leão XIV, o avanço tecnológico exige uma gestão ética voltada para o bem comum e para a dignidade. Devemos nos preocupar urgentemente em preservar elementos singulares da nossa identidade, como o rosto e a voz, contra manipulações. Assim, a responsabilidade permanece com os criadores, que devem guiar a inovação pelo discernimento ética e pelo respeito ao que nos torna humanos.

