Terceiro dia da missão do secretário para as Relações com os Estados e Organizações Internacionais, que esta manhã rezou na Igreja de São Nicolau e visitou a Rua Bratstva Tarasivtsiv, onde um míssil russo matou mais de 20 pessoas, incluindo crianças, em maio. O arcebispo transmitiu a proximidade do Papa Leão XIV a todos que encontrou: “Não passa um dia sem que ele reze pela Ucrânia e por vocês, homens e mulheres de fé.”
Roberto Paglialonga – Correspondente em Kiev
Existem lugares de dor que inevitavelmente se tornam lugares de memória coletiva. Bucha, Irpin Vorzel, permanecerão indeléveis nos olhos e corações dos ucranianos e não só. Nomes que se tornaram símbolo dos horrores da guerra desencadeada pela invasão russa em fevereiro de 2022, e que ainda não oferece vislumbre de uma possível conclusão ou uma perspectiva concreta de esperança.
Kiev está repleta de vestígios que recordam a brutalidade da violência e do ódio. O terceiro dia de missão do arcebispo Gallagher na Ucrânia, neste sábado, 18, é dedicado a visitar lugares que sofreram ataques nestes anos e nos últimos meses, mas onde, apesar de tudo, pode-se sentir o desejo das pessoas de tentar reconstruir. Reconstruir o essencial: os alicerces de uma igreja ou prédio destruído; as almas despedaçadas de pessoas vulneráveis e crianças; a coesão humana e social de uma comunidade unida pela fé.
A oração pela Paz na Igreja de São Nicolau em Kiev
Pela manhã, o prelado visitou a Igreja de São Nicolau, onde foi recebido pelo pároco, padre Pavlo Vyshkovsky OMI, e pelos fiéis ali reunidos. O prédio religioso foi atingido por um míssil russo em dezembro de 2024: os vidros das janelas foram literalmente arrancados e estilhaçados, e o interior sofreu danos consideráveis. Atualmente, encontra-se em processo de restauração e, nos últimos meses, graças aos esforços diplomáticos da Santa Sé, foi cedido pelas autoridades políticas ucranianas à comunidade católica latina.
Gallagher entrou na paróquia, onde já havia estado em sua primeira visita em 2022, acompanhado por cânticos e pela melodia do órgão. Em ucraniano, o arcebispo, o pároco e os demais sacerdotes presentes recitaram uma oração com a comunidade, invocando a paz para a Ucrânia e o fim da guerra. “Para alcançar esse objetivo”, disse Gallagher aos presentes, “uma coisa relevante é necessária, algo que já vejo em vocês: a virtude da perseverança.” De fato, “vocês estão perseverando em suas vidas, por seu país e em sua constante oração pela paz. E a perseverança é também a virtude que nos caracteriza como comunidade católica. Vocês têm perseverado como uma comunidade eucarística de oração, e eu já vejo os frutos disso em vocês. Vejo também o progresso e o trabalho em andamento sob a orientação do seu pároco”, acrescentou.
O presente de um ícone que permaneceu intacto após um ataque aéreo
Não há dúvida de que “problemas e dificuldades não faltarão – continuou o arcebispo – mas vejo vocês fortes na fé, na esperança e na caridade. E neste espírito, saúdo-os em nome de nosso Santo Padre Leão XIV. Não passa um dia sem que ele reze pela Ucrânia e por vocês, homens e mulheres de fé. Convido-os também a rezar por ele, e espero que um dia vocês tenham a felicidade de tê-lo aqui em Kiev também”, concluiu antes de conceder a bênção.
Um momento comovente foi quando um casal e uma mulher, todos vestidos de branco, presentearam o arcebispo Gallagher com dois buquês de girassóis: “Estas flores são simbolos da Ucrânia e de tantos dos seus mortos”, disseram, juntamente com um ícone da Sagrada Família.
Há duas semanas, o apartamento de alguns deles foi alvo de um intenso ataque de Moscou, sendo destruído, enquanto o ícone ali guardado permaneceu intacto: “Este é um símbolo de esperança para nós”, enfatizaram, antes de agradecer à Santa Sé e ao núncio apostólico pela ajuda e apoio ao longo dos anos. Ao final da visita, o padre Pavlo, falando à mídia do Vaticano, expressou “a grande felicidade de reencontrar o arcebispo Gallagher, quatro anos após sua primeira viagem a Kiev, e de receber seu afeto por nossa comunidade”.
Visita a um bairro da capital bombardeado em maio
A delegação visitou então a Rua Bratstva Tarasivtsiv, onde um ataque russo em 14 de maio matou 24 pessoas, incluindo três crianças, e feriu pelo menos doze. Lá, encontraram-se com autoridades locais, forças de emergência e representantes do ACNUR que trabalham no local, prestando assistência material e executando projetos de apoio psicossocial e recuperação de traumas. Gallagher ouviu explicações do ocorrido e conversou com membros das unidades de apoio civil e da agência da ONU sobre suas atividades e os principais desafios enfrentados.
“É relevante perceber que, somente desde junho deste ano, 300 civis foram mortos e milhares ficaram feridos: o maior número desde 2022”, disse o funcionário do ACNUR no local, durante uma parada em frente a um memorial erguido no jardim em frente aos prédios destruídos. Ao redor de uma grande árvore, na base do tronco, bichos de pelúcia, brinquedos e fotografias foram colocados por familiares e amigos das vítimas para manter viva a memória do ocorrido e daqueles que já não estão mais entre nós. Infelizmente, prosseguiu o delegado da agência da ONU, “vemos a frustração russa sendo cada vez mais descarregada sobre civis, com óbvios efeitos imediatos e posteriores, especialmente em crianças e jovens”, que sofrem de estresse “muito grave” e distúrbios mentais em decorrência dos bombardeios.
Danos ao Instituto Teológico dominicano
Por fim, a delegação parou no Instituto Teológico Dominicano São Tomás de Aquino, onde foi recebida pelo superior geral para a Ucrânia, padre Jaroslaw Krawiec. Em maio deste ano, mísseis e drones atingiram prédios próximos ao Instituto, destruindo várias casas, a praça do mercado e uma fábrica de armamentos ucraniana. Os fragmentos atingiram violentamente o prédio onde os frades moram, quebrando janelas e portas e causando danos significativos ao interior.
“Quando atinge, a onda de choque é devastadora e pode alcançar centenas de metros do ponto de impacto”, explica o padre Krawiec, apontando para os destroços do drone no pátio. “Somos verdadeiramente gratos por dom Gallagher poder nos visitar e ver os efeitos tangíveis dos bombardeios que nos atingiram. Nosso instituto é um lugar relevante para a educação católica e para a vida de muitos fiéis latinos na Ucrânia; há mais de cem estudantes, não apenas da nossa denominação”, acrescenta. Por isso, “agradecemos aos nossos amigos, aos nossos benfeitores e a todos aqueles que nos ajudaram durante esse período a reconstruir o que foi danificado”. Porque, conclui ele, “a coisa mais terrível em uma guerra é se sentir sozinho, não sentir a solidariedade daqueles que estão ao seu redor”.
Visita à Lavra (Mosteiro das Cavernas) de Kiev
Por fim, na tarde de sábado, Gallagher visitou o Mosteiro das Cavernas de Kiev (Pecherska Lavra di Kyiv), o mosteiro ortodoxo mais antigo da Ucrânia, um dos principais símbolos de sua história cristã e identidade espiritual, e Patrimônio Mundial da UNESCO. Na noite de 14 para 15 de junho de 2026, foi alvo de um ataque russo, e o telhado da Catedral da Dormição sofreu os maiores danos, embora tenha sido prontamente reparado.


