Novo guia sobre saúde mental e acompanhamento pastoral é apresentado em Roma

0

A publicação oferece nove caminhos pastorais para fortalecer o cuidado em contextos humanitários, da confiança e do pertencimento ao acompanhamento qualificado e ao apoio a quem cuida.

Márcio Gagliato, Peter Hanenberg e Aldo Skoda

Um novo guia, Saúde Mental e Acompanhamento Pastoral em Contextos Humanitários: Cuidado e Esperança em Espírito de Fraternidade, elaborado pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) e pelo Instituto Scalabriniano (SIMI), em colaboração com o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, foi oficialmente apresentado em 13 de outubro, durante uma jornada de estudos realizada na sede do Dicastério, em Roma. O encontro reuniu representantes da Igreja, teólogos, profissionais de saúde mental e da ação humanitária, com participação presencial e online.

O documento nasceu de um processo de escuta e consulta iniciado em 2024, que envolveu Igrejas locais, congregações religiosas, organizações humanitárias católicas e profissionais que atuam em diferentes contextos de crise. Muitos dos participantes acompanhavam outras pessoas em meio a crises que eles próprios também viviam. Suas experiências e perguntas foram colocadas em colóquio com o conhecimento científico e as evidências atuais sobre saúde mental e apoio psicossocial, com a antropologia cristã e com a reflexão teológica, num processo coletivo de síntese, redação e revisão.

O encontro teve início com intervenções de Peter Hanenberg, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, e de monsenhor Jozef Barlas, secretário do Dicastério. Barlas destacou uma compreensão integral da saúde mental, que inclui as relações, o pertencimento e a esperança. A competência profissional e o acompanhamento espiritual, explicou, oferecem contribuições distintas e complementares ao cuidado: a presença pastoral não substitui o apoio profissional, assim como o conhecimento profissional, por si só, não abarca toda a complexidade da experiência humana.

Compreender a pessoa para orientar o cuidado

Dom Joseph Tobji, arcebispo maronita de Aleppo, descreveu o que significa acompanhar pessoas em meio a anos de conflito, deslocamento e pobreza na Síria. Após o terremoto de 2023, recordou, famílias se reuniram em espaços paroquiais, inclusive algumas cujas casas não haviam sido danificadas. Buscavam o conforto de estar juntas. As refeições compartilhadas, a oração e a convivência cotidiana ajudaram a sustentá-las em meio ao medo e à incerteza. Ao lado dessas experiências de solidariedade, ele chamou a atenção para a falta de especialistas e as dificuldades de manter o cuidado ao longo do tempo.

Ao expor o guia, Márcio Gagliato, especialista em saúde mental global e assessor humanitário, examinou os fundamentos conceituais e antropológicos da saúde mental. “Nenhuma compreensão da saúde mental é antropologicamente neutra”, afirmou. As definições de bem-estar, funcionamento, recuperação e resiliência refletem pressupostos sobre a pessoa humana e influenciam a maneira como as necessidades são compreendidas e o cuidado é oferecido. “O que significa recuperar-se — e em direção a quê?”, perguntou, questionando se a adaptação a circunstâncias violentas ou desumanizadoras deve, em si mesma, ser considerada um resultado desejável.

Ele explicou como o documento coloca o conhecimento e as evidências atuais em saúde mental em colóquio com a antropologia cristã e as experiências das Igrejas locais, levando a sério o sofrimento psicológico e reconhecendo suas dimensões relacionais, sociais, culturais e espirituais. “O que uma pessoa viveu pode afetá-la profundamente, mas nunca esgota quem ela é”, disse.

Padre Aldo Skoda, diretor do SIMI, aprofundou a distinção entre tratar um problema de saúde e cuidar de uma pessoa. Cuidar, explicou, significa assumir responsabilidade pelo “bem da pessoa em sua integralidade e ao longo do tempo”. Essa responsabilidade se apoia numa dignidade que não pode depender da utilidade, da eficiência ou da probabilidade de recuperação. O cuidado, portanto, vai além do que se passa no interior do indivíduo: alcança também as relações e as circunstâncias que contribuem para o sofrimento.

Nove caminhos enraizados na experiência

Pascale Debbané, integrante do Dicastério, percorreu cada um dos nove caminhos do documento a partir de sua experiência de crescer em meio à guerra e ao deslocamento. Aos catorze anos, recordou, ouviu na missa a promessa de paz de Cristo e se perguntou o que a paz poderia significar no mundo que conhecia. Mais tarde, numa escola em outro país, uma religiosa se sentava ao seu lado sem pressioná-la a falar, enquanto a leitura semanal de seu diário por um professor oferecia espaço para aquilo que ela ainda não conseguia dizer em voz alta.

“Não eram problemas a resolver, mas clamores a acolher”, disse sobre as perguntas que o sofrimento havia despertado. Ao retomar suas experiências para refletir sobre segurança, pertencimento, sentido e esperança, descreveu o acompanhamento como “uma escuta que se prolonga no tempo”. Sua reflexão abordou também as capacidades das pessoas, as problemas graves de saúde mental e a necessidade de apoio profissional. “A boa vontade não basta, e o amor exige competência”, observou. Quem acompanha os outros, acrescentou, também precisa ser acompanhado.

Joseph Kelly, representante da aliança Catholic Response for Emergencies (CR4E), relacionou essas reflexões ao trabalho já realizado por organizações humanitárias católicas. Destacou a presença contínua das Igrejas locais antes, durante e depois das emergências, assim como as oportunidades de compartilhar experiências e fortalecer a cooperação entre equipes profissionais de saúde mental e estruturas pastorais.

Para os leitores, os nove caminhos oferecem orientações interligadas, e não um programa uniforme. Reconhecem práticas já presentes na vida pastoral, ao mesmo tempo que convocam ao conhecimento, ao discernimento e à colaboração com serviços especializados. Isso inclui reconhecer os limites da própria competência sem tratar um encaminhamento como o fim de uma relação. “Quando se faz um encaminhamento, o acompanhamento pastoral não termina — assume novas formas”, afirma o guia.

Da escuta à ação

A publicação chega no mês em que o Papa Leão XIV dedicou sua intenção de oração à saúde mental, convidando as comunidades cristãs a acolher sem julgar nem excluir.

Em sua mensagem para o Dia Mundial da Saúde Mental, em 10 de outubro, irmã Alessandra Smerilli, prefeita do Dicastério, afirmou: “Nenhuma ferida psicológica pode jamais apagar a dignidade de uma pessoa humana”. Ela situou a saúde mental no âmbito do desenvolvimento humano integral, com especial atenção às pessoas que vivem crises humanitárias e aos jovens que enfrentam insegurança e isolamento.

“A escuta deve se transformar em ação”, escreveu, defendendo um cuidado contínuo, competente e compassivo, formação para os agentes de pastoral, colaboração com profissionais de saúde e apoio às famílias. Sua mensagem também questionou uma concepção do cuidado como via de mão única: as pessoas em sofrimento psicológico não são apenas destinatárias do cuidado; suas vozes devem ajudar a construir as respostas.

Após as apresentações públicas, um colóquio com os participantes convidados permitiu refletir sobre a relevância do documento para diferentes realidades pastorais e humanitárias.

O guia está disponível em inglês, italiano, espanhol, francês e português no site do Dicastério, oferecendo ao clero, aos religiosos, aos agentes leigos de pastoral e às organizações humanitárias um recurso comum para a reflexão e o acompanhamento.

Leia o guia e acesse as versões nos cinco idiomas no site do Dicastério.

Fonte

Escreva abaixo seu comentário.

Por favor escreva um comentário
Por favor insira o seu nome aqui