Abramo-nos ao dom do Espírito, buscando o Senhor e acolhendo a luz do seu Evangelho, com a certeza de que experimentaremos em nós uma vida nova, uma presença que abençoa, um amor gratuito que nos ajudará a passar da noite para a luz. Porque Deus não quer que nada se perca e desde já deseja dar-nos a vida eterna, para nos conduzir à felicidade que não tem fim: foi a exortação de Leão XIV na Vigília de Oração na noite desta terça-feira no Estádio Olímpico “Lluís Companys”, em Barcelona, na Espanha
Raimundo de Lima – Vatican News
Leão XIV encerrou o quarto dia de sua viagem apostólica à Espanha com a Vigília de Oração no Estádio Olímpico “Lluís Companys”, em Barcelona, um momento forte de oração, de canto, de escuta, de colóquio do Santo Padre com os jovens, de encontro do Sucessor de Pedro com uma expressão significativa de 40 mil jovens desta Igreja particular de Barcelona, uma cidade cosmopolita, de grande importância cultural, comercial, financeira e turística, uma das mais visitadas da Europa, quer por turistas que querem conhecer a capital catalã, quer por aqueles que participam de congressos, reuniões e exposições que nela se realizam.
Após as palavras boas-vindas do arcebispo anfitrião, o cardeal Juan José Omella Omella, dirigidas ao Santo Padre e a entronização da Cruz, seguido do intenso momento de colóquio do Pontífice com os jovens – no qual respondeu a algumas perguntas que lhe foram dirigidas – e da proclamação do Evangelho, o Papa fez sua reflexão aos presentes.
Somos mendigos de amor
Partindo do texto evangélico proposto, Leão XIV ressaltou que também nós somos como Nicodemos, peregrinos na noite. Esta imagem evangélica, frisou ele, oferece-nos, acima de tudo, uma mensagem sobre o caminho da vida. O nosso caminhar, os nossos desejos e tudo aquilo que abraçamos e vivemos no dia-a-dia, nas alegrias e nas derrotas, nas aspirações e nos projetos, é a expressão da nossa busca contínua: somos mendigos de amor, temos fome e sede de verdade, procuramos um sentido pleno que nos sustente, nos anime e nos ajude a compreender o mistério da nossa vida.
Mas Nicodemos também nos fala do caminho da fé. Não se trata de uma senda paralela à da nossa existência humana, pois estes dois itinerários estão sempre entrelaçados, observou Leão XIV. Como ouvimos no Evangelho, disse, “Deus amou tanto o mundo que nos deu o seu Filho unigênito e, n’Ele, uniu-se para sempre à nossa carne”.
Nossa vida «está escondida com Cristo em Deus»
Ele está sempre junto do Pai e junto de nós; assim, cada vez que o mistério da nossa vida se desdobra à luz de um novo dia, em tudo o que somos e fazemos, estamos na presença de Deus e somos guardados pelo seu abraço eterno: a nossa vida «está escondida com Cristo em Deus». E, no entanto, “passamos pela noite da fé, pela cansaço de acreditar, pelo cansaço do espírito, pela sensação de desproporção perante o apelo do Evangelho, a amargura dos nossos fracassos e o medo de não sermos capazes”, acrescentou.
Este “espaço vazio” que a noite cria, mesmo quando se apresenta sob a forma de sofrimento ou insatisfação, de desilusão ou incredulidade, pode ser uma ocasião para receber uma nova vida, para mudar e renovar-se, para “renascer do alto”, como diz Jesus a Nicodemos. “Deus, com efeito, não veio para julgar o mundo com o seu pecado nem para julgar a noite da sua deslealdade, mas enviou o seu Filho para o salvar, para dar ao mundo a vida eterna”, prosseguiu.
Abrirmo-nos ao sopro do Espírito
Por isso, também nós somos chamados a não julgar tais “noites”: nem as noites da nossa vida, nem as da Igreja, nem as da sociedade que nos rodeia. Pelo contrário, na noite devemos pôr-nos a caminho, como faz Nicodemos, continuar a interpelar o Senhor, abrirmo-nos ao sopro do Espírito para acolher a noite já não como sinal de um fracasso, mas como o início duma nova vida.
E ao refletirmos sobre o nosso caminho pessoal, mas também sobre as noites do nosso trajeto eclesial e da Espanha, das suas cidades, das suas antigas e novas formas de pobreza, da sua sociedade e cultura, podemos então questionar-nos: quais são as noites que atravessamos? O que nos sugerem? Ao entrarmos nelas e olharmos com humildade e sem preconceitos para a realidade de nós mesmos, o que somos chamados a mudar? Onde devemos renovar-nos, em que direção queremos ir, que sociedade queremos construir?
Deus desde já deseja dar-nos a vida eterna
“Abramo-nos ao dom do Espírito – exortou por fim o Santo Padre -, buscando o Senhor como Nicodemos e acolhendo a luz do seu Evangelho, com a certeza de que experimentaremos em nós uma vida nova, uma presença que abençoa, um amor gratuito que nos ajudará a passar da noite para a luz. Porque Deus não quer que nada se perca e desde já deseja dar-nos a vida eterna, para nos conduzir à felicidade que não tem fim”.
O Pontífice concluiu pedindo a intercessão da Virgem Maria para que o Senhor nos conceda a graça de abrirmo-nos a Ele e deixarmo-nos agitar pelo vento do seu Espírito.


