O Papa na França: viagem entre os desafios do país e o colóquio com a Europa

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O diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, apresenta a quinta viagem apostólica internacional de Leão XIV, de 25 a 28 de setembro. Serão quatro dias durante os quais o Papa encontrará as diferentes realidades de um país que hoje se interroga sobre si mesmo e onde se observa um crescimento da fé. De Paris, o Pontífice lançará uma mensagem para todo o continente. Na Unesco, estarão em pauta temas como arte, educação, meio ambiente e inteligência artificial.

Salvatore Cernuzio – Cidade do Vaticano

Entre os desafios da França e o colóquio com a Europa, a devoção mariana e a centralidade da educação e da arte, a urgência da paz, as feridas sociais e as questões políticas. A viagem do Papa Leão XIV à França, de 25 a 28 de setembro, apresenta múltiplas dimensões. Será a quinta viagem internacional do Pontífice, na qual se entrelaçarão história e atualidade, memória e porvir, tendo como pano de fundo cenários grandiosos — Notre-Dame, a Place de la Concorde e o Palácio do Eliseu, em Paris —, lugares profundamente espirituais, como Lourdes, e importantes cruzamentos geográficos, como Metz.

O diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, apresentou aos jornalistas detalhes e nuances da viagem do Pontífice norte-americano à França. Ao longo desses quatro dias, Leão XIV falará às diferentes realidades de um país que, por vezes, parece esquecer suas raízes, mas onde se observa um despertar espiritual, sobretudo entre os jovens.

As visitas de João Paulo II, Bento XVI e Francisco

 

Passaram-se 18 anos desde a última viagem de um Papa a Paris e Lourdes, quando Bento XVI visitou a França, em 2008, por ocasião dos 150 anos das aparições na Gruta de Massabielle. João Paulo II esteve na França sete vezes — oito, se for considerada a passagem por La Réunion, departamento francês ultramarino, em 1989. Francisco esteve três vezes no país, em Estrasburgo, Marselha e Córsega, mas nunca em uma visita oficial e, portanto, jamais havia estado na capital.

Leão XIV chegará a Paris às 10 horas da manhã de 25 de setembro, preparando-se para “um primeiro dia muito intenso, também do ponto de vista temático”.

Encontro com a nação e com o povo

 

Entre o Eliseu, a Unesco, Notre-Dame e o Stade de France, localizado na periferia de Saint-Denis, o Sucessor de Pedro encontrará já no primeiro dia “a nação francesa, seu povo, sua história e sua cultura de raízes antigas, profundamente cristãs, que encontraram expressão na sociedade”, destacou Bruni.

As primeiras 24 horas de Leão XIV em Paris serão também uma oportunidade para tocar de perto a “fé” desse país, com sua história de atenção aos filhos mais frágeis e aos mais pobres, além de sua “história de vínculos” com o mundo, especialmente com o Oriente Médio cristão. Nos 15 discursos que o Papa fará durante a viagem — todos em francês, com exceção dos pronunciamentos na Unesco e em Metz, que serão em inglês — haverá referências às “situações de conflito” e à “solidariedade” demonstrada pela França ao longo dos séculos.

Um país que se interroga sobre si mesmo

 

A França de hoje, nas palavras do porta-voz vaticano, é uma terra “que se faz perguntas sobre si mesma, sobre a sociedade, sobre o ser humano e sobre a vida”, assim como sobre a necessidade de “achar respostas sem delegar essa tarefa à ciência, à tecnologia, às instituições e à sociedade”.

A própria Igreja, acrescentou Bruni, é “uma Igreja que se interroga” e enfrenta os desafios da secularização. Durante a viagem, haverá também espaço para abordar o papel da Igreja no campo da educação, diante do grande número de escolas católicas existentes no país.

Cerca de 600 mil fiéis na Missa

 

Também chama a atenção o número de fiéis esperados para a celebração da Missa na Place de la Concorde: cerca de 600 mil fiéis. Um dos lugares mais carregados de significado da França, a praça representa a passagem entre o passado monárquico, o sangue da Revolução Francesa e a posterior busca pela unidade nacional.

A escolha do local para uma celebração religiosa recebeu críticas por parte de alguns setores, considerando o princípio da laïcité — a laicidade — que caracteriza a França. Sem ingressar diretamente na questão, o diretor da Sala de Imprensa explicou que foi escolhido um espaço “suficientemente grande” para acolher aqueles que desejarem participar, vindos de diferentes regiões do país. Segundo os números da Conferência Episcopal Francesa, o número de participantes previstos é expressivo e representa pessoas de todo o país.

Bruni também mencionou outro dado: mais de 13 mil catecúmenos receberam o Batismo na última Páscoa, sinal de uma comunidade católica que, segundo ele, está “em crescimento”.

Na Unesco, arte, educação, meio ambiente e inteligência artificial

 

A mensagem geral do Papa à Igreja e, por meio dela, à sociedade será a da “busca da unidade”, destacou o porta-voz vaticano. Essa mensagem também estará presente na sede da Unesco, onde, por ocasião dos 75 anos das relações com a Santa Sé, será assinado um acordo-quadro.

“O encontro se amplia à arte, à educação e ao papel que ambas desempenham no mundo”, explicou Bruni, em contraste com “uma visão utilitarista da vida e do ser humano”. O enfoque incluirá a proteção da vida humana, de toda vida, especialmente nos momentos de maior fragilidade.

A visita poderá também oferecer uma oportunidade para uma referência ao meio ambiente. Outro tema será a inteligência artificial, com referências substanciais à encíclica Magnifica humanitas, de Leão XIV.

Peregrinação a Lourdes

 

Sobre a etapa em Lourdes, Matteo Bruni explicou que a mensagem que parte da cidade aos pés dos Pireneus dialoga diretamente com o nosso tempo. Ali, o Papa encontrará os bispos e também um grupo de vítimas de abusos, em um encontro reservado sobre o qual ainda não foram divulgados detalhes.

Durante a coletiva, uma pergunta abordou o caso de Marko Rupnik, ex-jesuíta acusado de abusos sexuais e psicológicos contra mulheres adultas e cujo processo está em andamento no Vaticano. Seus mosaicos decoram a fachada do santuário de Lourdes.

Como se sabe, está em andamento a cobertura integral dessas obras por decisão do bispo local, dom Jean-Marc Micas, como forma de respeito às vítimas. Bruni não entrou na questão, limitando-se a reiterar que o sentido da viagem de Leão XIV a Lourdes é o de uma peregrinação a um centro de fé e devoção.

De Metz, uma mensagem para a Europa

 

O diretor da Sala de Imprensa também destacou a visita a Metz, cidade fronteiriça que viu nascer Robert Schuman, considerado um dos pais do projeto de “uma Europa onde unidade e diversidade coexistem”.

“A Europa será o coração do discurso aqui”, afirmou Bruni. Também estará presente a dimensão inter-religiosa, com um encontro no qual representantes de diferentes religiões deverão ler um apelo comum.

Diversas personalidades das instituições europeias participarão do encontro “Às raízes da Europa”, no Centro de Congressos Robert Schuman, em Metz. Segundo Bruni, permanece “aberta a porta” para possíveis encontros privados bilaterais com líderes internacionais, embora nem todos tenham confirmado sua presença até o momento.

De qualquer modo, esclareceu o porta-voz, a importância da visita a Metz “não é determinada apenas pela presença ou não de chefes de Estado”, mas pelo discurso do Pontífice, que “se dirige a todos” e aborda questões que dizem respeito ao continente inteiro.

A delegação papal

 

A delegação que acompanhará o Papa inclui os cardeais José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação; Dominique Mamberti, prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica; e George Koovakad, prefeito do Dicastério para o colóquio Inter-religioso.

Também estará presente dom Filippo Iannone, prefeito do Dicastério para os Bispos. O secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, não participará da viagem, pois estará empenhado em atividades nas Nações Unidas, em Nova York.

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