Leão XIV chegou nesta quarta-feira, 15/04, a Camarões. Em seu primeiro discurso no país, dirigido às autoridades, à sociedade civil e ao corpo diplomático, o Pontífice pediu o fim das guerras, afirmou que a paz deve traduzir-se em escolhas concretas e destacou a diversidade camaronesa como uma riqueza para a construção do bem comum.
Thulio Fonseca – Vatican News
Na tarde desta quarta-feira, 15 de abril, teve início a segunda etapa da viagem apostólica de Leão XIV ao continente africano. O Pontífice chegou em Camarões, tornando-se o terceiro Papa a visitar o país, após São João Paulo II, em 1985 e 1995, e Bento XVI, em 2009.
Ao chegar ao Aeroporto Internacional de Yaoundé-Nsimalen, o Santo Padre foi recebido pelo primeiro-ministro, Joseph Dion Ngute, e pelo núncio apostólico. Em seguida, fez uma visita de cortesia ao presidente Paul Biya. Depois, no Palácio Presidencial, encontrou-se com representantes das autoridades, da sociedade civil e do corpo diplomático, aos quais dirigiu seu discurso, após a saudação do presidente camaronês.
Papa: diversidade é riqueza e fundamento da paz
Ao iniciar sua intervenção, o Papa agradeceu a acolhida e destacou a identidade do país, frequentemente chamado de “África em miniatura” pela sua diversidade cultural, linguística e territorial: “Esta variedade não é uma fragilidade: é um tesouro. Constitui uma promessa de fraternidade e um sólido fundamento para a construção de uma paz duradoura.”
Apresentando-se como “pastor e servidor do colóquio, da fraternidade e da paz”, Leão XIV manifestou o desejo de encorajar o povo camaronês a prosseguir na construção do bem comum, especialmente em um tempo marcado pela resignação e pelo sentimento de impotência.
Um apelo aos jovens e à responsabilidade política
O Pontífice dirigiu um olhar especial aos jovens, chamados a contribuir para um mundo mais justo: “Quanta fome e sede de justiça! Quanta sede de participação, de visões, de escolhas corajosas e de paz!”
Recordando as visitas de seus predecessores, o Papa propôs uma reflexão sobre os frutos alcançados e os desafios ainda presentes, citando Santo Agostinho para reafirmar o sentido do serviço na autoridade: “Aqueles que mandam estão ao serviço daqueles a quem, aparentemente, parecem mandar.”
“Chega de guerras!”
Diante das tensões e violências que afetam regiões do país, o Santo Padre evocou o sofrimento de tantas pessoas e fez um forte apelo:
Leão XIV destacou que “a paz não se decreta: acolhe-se e vive-se.” E insistiu na necessidade de uma paz “desarmada e desarmante”, capaz de gerar confiança, empatia e esperança.
Autoridade como serviço e escuta do povo
O Papa sublinhou que governar significa amar o próprio país e ouvir verdadeiramente os cidadãos, valorizando sua capacidade de contribuir para soluções duradouras. Nesse contexto, recordou que a responsabilidade política deve estar enraizada no bem comum e na justiça, superando modelos assistencialistas que não envolvem efetivamente os mais pobres.
Leão XIV destacou com gratidão a atuação da sociedade civil, definida como “força vital para a coesão nacional”. Associações, mulheres, jovens, organizações humanitárias e líderes religiosos desempenham, segundo ele, um papel insubstituível na construção da paz. Em particular, o Papa ressaltou a contribuição das mulheres:
“Muitas vezes, infelizmente, elas são as primeiras vítimas de preconceitos e violências, e, no entanto, continuam a ser incansáveis artífices da paz. O seu empenho na instrução, na mediação e na reconstrução do tecido social é inigualável e representa um freio à corrupção e aos abusos de poder. Também por isso a voz delas deve ser plenamente reconhecida nos processos de tomada de decisão.”
Transparência, justiça e combate à corrupção
O discurso também abordou a necessidade de instituições justas e credíveis, destacando que a transparência e o respeito ao Estado de direito são essenciais para restaurar a confiança. O Pontífice fez um apelo claro:
Construir um porvir de paz
Voltando-se novamente aos jovens, o Papa enfatizou a urgência de investir em educação, formação e oportunidades: “Investir na instrução, na formação e no empreendedorismo dos jovens é, portanto, uma escolha estratégica para a paz.” Segundo o Santo Padre, essa é a única forma de evitar a migração forçada de talentos e combater problemas como drogas, prostituição e exclusão social.
Leão XIV também destacou o valor das tradições religiosas, quando vividas de forma autêntica, como fonte de paz e solidariedade. Incentivou o colóquio inter-religioso e a colaboração entre política e fé para prevenir conflitos e promover a reconciliação. A Igreja Católica, assegurou, continuará a servir a todos os cidadãos e “deseja colaborar lealmente com as autoridades civis e com todas as forças vivas da nação para promover a dignidade humana e a reconciliação”.
Ao concluir, o Santo Padre confiou o país à proteção divina: “Que Deus abençoe Camarões, sustente os seus dirigentes, inspire a sociedade civil, ilumine o trabalho do Corpo Diplomático e conceda a todo o povo camaronense – cristãos e não cristãos, responsáveis políticos e cidadãos – a capacidade de acolher o Reino de Deus, construindo juntos um porvir de justiça e paz.”


