Papa encerra o Consistório: Deus deseja a paz. A violência não terá a última palavra

0

Leão XIV conclui o encontro com os cardeais com a esperança renovada: “Estes dias fortalecem minha esperança. Não apenas pelo que compartilhamos, mas pela maneira como o fizemos. Em uma época marcada pela polarização, até mesmo a maneira como a Igreja escuta e dialoga torna-se parte de seu anúncio”.

Bianca Fraccalvieri – Vatican News

“Desejo expressar a nossa solidariedade — minha e de todo o Colégio Cardinalício — à população da Venezuela, duramente atingida pelo violento terremoto dos últimos dias.” Antes de passar às considerações finais do Consistório Extraordinário, o Papa Leão dirigiu seu pensamento aos venezuelanos, assegurando orações pelas vítimas, por suas famílias e por todos aqueles que sofrem as consequências da tragédia ocorrida quinta-feira passada. O Pontífice confiou ao Senhor todos aqueles que estão empenhados nos trabalhos de socorro, pedindo a solidariedade da comunidade internacional.

Cardeais reunidos, motivo de consolo e de esperança

Já aos cardeais que participaram desses dois dias de reuniões, o sentimento do Santo Padre foi de gratidão “pela liberdade, pela fraternidade e pelo espírito eclesial” com que participaram dos trabalhos. “Levo comigo não apenas o conteúdo de suas reflexões, mas também a experiência que as tornou possíveis”, afirmou. 

“Ver cardeais provenientes de Igrejas, culturas e situações tão diversas ouvindo-se mutuamente e buscando juntos o que melhor serve ao Evangelho foi para mim motivo de consolo e de esperança.”

Se a imagem do bom samaritano guiou o início do evento, Leão XIV concluiu com a imagem dos discípulos de Emaús: “Caminhamos juntos, ouvimos uns aos outros e, se deixamos espaço para o Senhor, Ele reacendeu a esperança em nossos corações e agora nos remete às nossas Igrejas para retomarmos a caminhada com um olhar renovado”.



Clima fraterno na Sala Paulo VI   (@Vatican Media)

Sinodalidade, um estilo espiritual

Esse caminho traz à tona o tema da sinodalidade. A questão, afirmou, não é sobre quem tem o poder de decisão, mas como guardar juntos o dom que o Senhor confiou à sua Igreja. “Quando essa pergunta se torna o centro do nosso discernimento, também as questões da autoridade, da corresponsabilidade e das decisões encontram seu devido lugar”, disse o Papa, confiando aos cardeais, mais uma vez, o caminho de implementação do Sínodo nas Igrejas particulares.

Citando o pronunciamento do cardeal Grech, o Pontífice reiterou que a sinodalidade não é um conjunto de reuniões nem um método de trabalho. “É um estilo espiritual”, em que se destaca a qualidade evangélica dos encontros, não o número. 

De um coração reconciliado podem nascer palavras desarmadas

Em seguida, o Santo Padre falou dos assuntos debatidos, como guerras, violência, pobreza e injustiças. Por trás desses dramas, os cardeais reconheceram um sofrimento ainda mais profundo: a solidão, a crise das relações, a perda da esperança, a dificuldade de se reconhecerem mutuamente como irmãos e irmãs. Isso impacta sobretudo a vida dos jovens e das famílias. A propósito, o Papa citou o encontro de outubro com os líderes das Igrejas orientais e os presidentes das Conferências Episcopais para avaliar os passos dados após a Amoris laetitia, inclusive com a participação de algumas famílias para compartilharem suas experiências. 

Essas feridas, disse ainda Leão, revelam o coração do homem: “É justamente ali, no coração, que se decide também a paz. Antes de se manifestar na história, a guerra nasce dentro de nós, quando a desconfiança toma o lugar da confiança, o medo, da esperança, e o outro é percebido como uma ameaça. Mas é nesse mesmo coração que Cristo continua a nos achar, a falar conosco e a nos converter. De um coração reconciliado podem nascer palavras desarmadas, novas relações e uma paz capaz de alcançar até mesmo os povos”.

O Papa chegando para os trabalhos

O Papa chegando para os trabalhos   (@Vatican Media)

Não violência e legítima defesa

O Pontífice declarou-se satisfeito com as reflexões sobre a Encílica Magnifica humanitas, que adverte para uma cultura do poder que permeia nossa maneira de pensar, de lidar com a economia, a tecnologia e até mesmo com a religião.

Isso exige reconstruir a cultura de cooperação e do colóquio, inclusive ecumênico e inter-religioso, dando nova força também ao multilateralismo. O Papa definiu “valiosa” a abordagem dos cardeais sobre a não violência. “Trata-se de uma forma profundamente evangélica de viver a história, fruto da contemplação da maneira de agir de Jesus. Não consiste em renunciar ao conflito nem em adotar uma atitude passiva, mas em optar por enfrentá-lo sem reproduzir sua lógica. (…) Essa é a força do Crucificado ressuscitado: uma força que não destrói o inimigo, mas torna possível reencontrar um irmão.” Nessa perspectiva, Leão XIV defendeu o aprofundamento do tema da legítima defesa, com o necessário rigor teológico e pastoral. 

A Igreja é chamada a tornar-se cada vez mais aquilo que proclama

A Doutrina Social da Igreja e o bem comum também foram citados, assim como a importância do testemunho, da proximidade, da formação das consciências e da construção de comunidades fraternas e confiáveis. “A Igreja é chamada a tornar-se cada vez mais aquilo que proclama”, afirmou, ressaltando a necessidade de reformas das estruturas, das instituições e dos processos:

“Estes dias fortalecem minha esperança. Não apenas pelo que compartilhamos, mas pela maneira como o fizemos. Em uma época marcada pela polarização, até mesmo a maneira como a Igreja escuta e dialoga torna-se parte de seu anúncio.”

O próprio evento destes dias faz parte deste colóquio. Não se trata de um parlamento nem de um congresso em que prevalecem opiniões ou interesses, “mas uma experiência de comunhão a serviço da missão”, afirmou Leão XIV anunciando que até o final do ano comunicará a data de um novo Consistório:

“Este Consistório foi um momento precioso, mas não deve permanecer um evento isolado”, disse o Papa. Ouvir-se, rezar, discernir e caminhar juntos é a essência do caminho de implementação do Sínodo, acrescentou, afirmando que este será também o espírito do próximo encontro dedicado à Amoris laetitia e de muitas outras iniciativas futuras. “O que importa não é multiplicar os encontros, mas aprender a viver encontros nos quais, ao nos ouvirmos mutuamente, aprendamos juntos a ouvir o Senhor.”

A foto de grupo!

A foto de grupo!   (@Vatican Media)

A violência não terá a última palavra

Por fim, uma palavra sobre a paz, que surgiu como um apelo unânime neste Consistório: “Deus deseja a paz para cada nação e para cada povo. Por isso, não devemos nos resignar à violência. A violência não terá a última palavra. Deus continua a abrir, na história, caminhos de reconciliação e de paz. Temos a responsabilidade de trilhá-los com coragem e de ajudar o mundo a reconhecê-los”.

Leão XIV se despediu agradecendo “de todo o coração” pela contribuição dos cardeais: “Obrigado por me ajudarem, mais uma vez, a reconhecer a obra que Cristo continua a realizar no meio de seu povo e no mundo. Confiemos os frutos deste Consistório à intercessão da Virgem Maria, Mãe da Igreja. Que ela nos ensine a preservar a unidade na diversidade e a servir o Evangelho da paz com humildade, coragem e esperança”.

Fonte

Escreva abaixo seu comentário.

Por favor escreva um comentário
Por favor insira o seu nome aqui