Os participantes num webinar organizado pelo Gabinete dos Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da Conferência dos Bispos Católicos da África Austral (SACBC) e pela Associação Inter-Regional dos Bispos da África Austral (IMBISA) lançaram um forte apelo aos líderes religiosos para que sejam mais vocais e proactivos no enfrentamento do crescente número de protestos anti-migrantes na África do Sul.
Por Sheila Pires, em Joanesburgo
O encontro virtual, realizado na sexta-feira, 8 de maio, reuniu mais de 80 participantes, incluindo líderes da Igreja, organizações da sociedade civil, grupos de defesa dos refugiados, especialistas jurídicos e trabalhadores humanitários, para reflectirem sobre a crescente hostilidade enfrentada por migrantes e refugiados em várias partes da África do Sul. A discussão teve lugar num contexto de aumento das manifestações anti-migrantes, particularmente em KwaZulu-Natal e Gauteng, bem como de um renovado debate nacional sobre a migração indocumentada.
Ao abrir o webinar com uma oração, o Bispo responsável pelo Gabinete dos Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da SACBC, Dom Joseph Mary Kizito, apelou à compaixão e solidariedade para com “os homens, mulheres e crianças que procuram paz, dignidade e uma vida melhor”. Rezou para que as sociedades africanas se tornem “comunidades que acolhem, protegem e promovem a integridade humana”.
Nas suas palavras de abertura, o Bispo de Caia (Moçambique), Dom António Manuel Bogaio Constantino MCCJ, reconheceu a complexidade da migração na África Austral, sublinhando que a Igreja deve ajudar os governos a achar respostas humanas e sustentáveis para os desafios migratórios. Afirmou que a crise não é apenas um fardo da África do Sul, mas “um problema para todos os países à volta da África do Sul”, exigindo colóquio, cooperação e acompanhamento pastoral.
Grande parte do webinar centrou-se nas preocupações de que os líderes religiosos não têm falado com suficiente firmeza contra a retórica anti-migrante.
O Sr. James Chapman, do Centro Scalabrini da Cidade do Cabo, alertou que os sentimentos xenófobos se tornaram generalizados, especialmente nas plataformas de redes sociais, alimentando ameaças, violência e intimidação contra migrantes e organizações que defendem os seus direitos.
“Onde estão as comunidades religiosas? Onde está a Igreja no meio de tudo isto?”, questionou Chapman. “Não podemos permanecer passivos enquanto alguns alimentam sentimentos anti-migrantes e xenofobia.”
Descreveu ainda como organizações que defendem a protecção dos refugiados se tornaram elas próprias alvo de abusos e ameaças online, enquanto grupos anti-migrantes continuam a adquirir visibilidade através de marchas públicas e discursos políticos.
Representantes da Lawyers for Human Rights, do Consortium for Refugees and Migrants in South Africa (CoRMSA) e da Refugee Social Services destacaram o trauma vivido pelos migrantes e refugiados, incluindo medo, agressões, interrupções escolares para as crianças e dificuldades no acesso aos serviços de saúde.
Criticaram também o papel das redes sociais na disseminação de discursos de ódio e desinformação, alertando que os migrantes estão cada vez mais a ser responsabilizados pelo desemprego, pela fraca prestação de serviços e pelas dificuldades económicas enraizadas em desigualdades estruturais mais profundas.
O Pe. Rampe Hlobo SJ, diretor da Jesuit Justice and Ecology Network Africa (JENA), afirmou que a Igreja deve abordar a migração com compaixão e responsabilidade. Apelou aos líderes políticos para que não explorem as frustrações públicas para ganhos eleitorais antes das próximas eleições na África do Sul.
“Os verdadeiros líderes não dividem as comunidades; unem-nas”, afirmou, alertando contra a manipulação do medo e das tensões sociais.
Vários participantes insistiram que os líderes religiosos devem ir além das declarações e tornar-se mais visíveis na promoção da coesão social, da solidariedade e da educação contra a xenofobia. Pediram uma pregação mais forte a partir dos púlpitos, maior colaboração entre as Igrejas e campanhas coordenadas de advocacia envolvendo a sociedade civil e organismos regionais.
Durante a discussão, os participantes reflectiram também sobre os laços históricos da África do Sul com o resto de África durante a luta contra o apartheid, afirmando que muitos sul-africanos esqueceram a solidariedade oferecida pelos países vizinhos durante a era da libertação.
Ao encerrar o webinar, Dom Kizito reconheceu que as Igrejas têm falado contra os sentimentos anti-migrantes, mas admitiu que as comunidades cristãs muitas vezes “falam a partir de cantos diferentes” em vez de o fazerem com uma só voz.
“Precisamos de falar juntos. Precisamos de cantar pela mesma partitura”, afirmou, apelando a uma cooperação mais forte entre Igrejas, departamentos governamentais, organizações jurídicas e grupos humanitários.
O webinar teve lugar pouco antes do Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, emitir uma declaração nacional condenando os protestos violentos dirigidos contra cidadãos estrangeiros, ao mesmo tempo que apelava a uma aplicação mais rigorosa das leis de imigração. Na sua Newsletter semanal publicada na segunda-feira, 11 de maio, o Presidente sublinhou que “não há lugar na África do Sul para a xenofobia, mobilização étnica, intolerância ou violência”.
Os participantes do webinar concordaram que, embora os desafios da migração exijam uma gestão legal e responsável, a violência e a procura de bodes expiatórios não podem ser toleradas. Concluíram com um renovado apelo aos líderes religiosos de toda a África Austral para que levantem as suas vozes de forma mais corajosa em defesa da dignidade humana, da paz e da solidariedade entre os povos africanos.

