A amizade social como método: o IV Encontro Fratelli tutti em Roma

0

O reitor da PUC-Rio, Pe. Anderson Antônio Pedrodo, esteve em Roma para participar do encontro com representantes de vários países, e assina artigo para falar da experiência e dos resultados da iniciativa já que, “diante de conflitos que parecem insolúveis, existe um instrumento que muitas vezes não levamos suficientemente a sério — a amizade social”.

Pe. Anderson Antônio Pedroso*

Entre os dias 10 e 12 de setembro, Roma acolheu o IV Encontro Fratelli tutti – colóquio Socioambiental Norte-Sul, reunindo representantes de importantes organizações das Américas, do Norte ao Sul do continente. Participaram conferências episcopais, redes e organismos internacionais, bancos, fundações, sindicatos, câmaras empresariais, universidades e comunidades organizadas. Uma composição deliberadamente plural, porque os grandes problemas sociais e ambientais de nosso tempo já não podem ser enfrentados a partir de um único ponto de vista. Promovido pela Pontifícia Comissão para a América Latina, pelo Celam e pela United States Conference of Catholic Bishops, o encontro partiu de uma convicção simples e, ao mesmo tempo, exigente: diante de conflitos que parecem insolúveis, existe um instrumento que muitas vezes não levamos suficientemente a sério — a amizade social.

A expressão, central na Fratelli tutti de Francisco, ganha nova atualidade no magistério de Leão XIV. Em sua encíclica Magnifica humanitas, o Papa recorda que a construção de uma sociedade verdadeiramente humana exige recuperar o colóquio, o bem comum e a capacidade de estabelecer relações mesmo entre aqueles que pensam de maneira diferente. E insiste em um gesto anterior a qualquer negociação: “desarmar as palavras”. A paz começa também na maneira como olhamos, escutamos e falamos uns dos outros (Magnifica humanitas, 214). Talvez seja justamente esta a experiência mais significativa do encontro de Roma.

Os quatro projetos apresentados possuem uma característica comum: reúnem atores que, à primeira vista, poderiam parecer distantes, quando não adversários. Sindicatos e empresários, instituições econômicas e organizações sociais, universidades e comunidades locais são convidados não a apagar suas diferenças, mas a trabalhar a partir delas. Durante aproximadamente um ano, pessoas e instituições que antes pouco se conheciam — ou que, em alguns casos, não estavam habituadas a trabalhar juntas — sentaram-se à mesma mesa. Escutaram-se, confrontaram perspectivas, reconheceram divergências e procuraram identificar algum terreno comum sobre o qual fosse possível construir.

Os resultados apresentados em Roma são ainda parciais. E talvez justamente por isso sejam importantes. O valor da experiência não reside apenas nas soluções já encontradas, mas na descoberta de que é possível produzir alguma coisa juntos sem que todos precisem pensar da mesma maneira. Essa atitude possui também uma dimensão cristã. Fazemos isso como cidadãos, como cristãos e, em nosso caso, como católicos que procuram responder ao apelo do Papa: desarmar as palavras, reconstruir relações e transformar o colóquio em ação. Leão XIV recordou recentemente que não basta desarmar: é preciso construir. E construir significa também reparar vínculos, restaurar a confiança e tornar novamente possível um porvir compartilhado. 

Foi nesse contexto que, como presidente da Organização de Universidades Católicas da América Latina e do Caribe (Oducal), apresentei a contribuição das universidades católicas para uma das questões mais sensíveis do continente: a mineração. A proposta parte de uma opção metodológica fundamental. Não queremos começar por conclusões previamente estabelecidas, nem transformar a universidade em porta-voz de uma posição ideológica. Queremos começar pela realidade. Por meio da Oducal, universidades católicas desenvolverão um projeto de pesquisa sobre mineração inspirado em nossos valores sociais, ambientais e humanistas. Serão estudados dois casos concretos: uma mina no Peru e outra no Brasil.

O método científico permitirá produzir dados técnicos rigorosos. Mas a realidade da mineração não pode ser compreendida apenas por números, indicadores econômicos ou análises geológicas. A pesquisa terá também uma dimensão sociológica e humanista. Partiremos do território. Queremos escutar as comunidades locais, compreender suas experiências e respeitar seus saberes, suas preocupações e suas aspirações. Isso significa reunir aquilo que muitas vezes aparece separado: desenvolvimento econômico e cuidado ambiental; conhecimento científico e experiência das populações; necessidades estratégicas dos países e dignidade das comunidades que vivem nos territórios onde os recursos são encontrados. Ao final de aproximadamente um ano, pretendemos produzir um relatório que articule essas diferentes dimensões e ofereça elementos sólidos para o discernimento dos passos seguintes. Os resultados serão apresentados ao Papa e aos bispos, nossos pastores, como contribuição das universidades para uma reflexão informada e responsável.

A universidade católica presta talvez um de seus melhores serviços à Igreja e à sociedade quando faz exatamente isso: não substitui a realidade por uma ideologia, mas cria as condições para que a realidade possa falar. Pesquisa com rigor, escuta com respeito, coloca conhecimentos diferentes em relação e oferece elementos para o discernimento.

O IV Encontro Fratelli tutti mostra que, diante dos grandes desafios socioambientais de nosso tempo, talvez precisemos acrescentar algo ao modo habitual de procurar soluções. Além de ciência, tecnologia, legislação, investimento e políticas públicas, precisamos reconstruir a capacidade de nos encontrarmos. A amizade social, portanto, não é ingenuidade nem ausência de conflito. É a decisão de não permitir que o conflito tenha a última palavra.

Entre o Norte e o Sul, entre empresários e trabalhadores, entre desenvolvimento e preservação ambiental, entre interesses econômicos e comunidades locais, talvez o primeiro passo não seja descobrir imediatamente quem tem razão. Talvez seja criar as condições para que aqueles que até ontem estavam separados possam olhar juntos para a mesma realidade. É assim que começa a amizade social. E é assim, muitas vezes, que pode se consolidar a construção da paz.

*reitor da PUC-Rio e presidente da Organização de Universidades Católicas da América Latina e do Caribe (Oducal)

Fonte

Escreva abaixo seu comentário.

Por favor escreva um comentário
Por favor insira o seu nome aqui