Como a Musicoterapia transforma vidas e estimula o cérebro. Entrevista com a musicoterapeuta Ariela Amorim.
Silvonei José – Vatican News
A música acompanha a humanidade desde os seus primórdios, mas o seu uso como uma ferramenta científica e estruturada de cura e reabilitação vai muito além do entretenimento. Em entrevista aos jornalista Silvonei José, a musicoterapeuta Ariela Amorim, da cidade de Pato Branco (PR), explicou como a musicoterapia atua no desenvolvimento humano e no tratamento de diversas condições de saúde, funcionando como um verdadeiro “recurso mágico” para o cérebro.
O que é a Musicoterapia?
Ao contrário do que muitos pensam, a musicoterapia não é apenas ouvir música para relaxar. Trata-se de um processo terapêutico conduzido por um profissional graduado na área, que utiliza a música, o som e seus elementos constituintes — como ritmo, harmonia e melodia — para alcançar objetivos específicos no paciente.
Segundo Ariela, o grande diferencial da música é a sua capacidade de ativar várias partes do cérebro simultaneamente, algo que raríssimos estímulos conseguem fazer. Essa ativação global permite trabalhar de forma integrada aspectos como: cognição e atenção; coordenação motora e psicomotricidade; expressão de sentimentos e socialização.
Como exemplo prático, a terapeuta cita o ato de tocar um piano em sessão: o paciente exercita a coordenação motora ao tocar as teclas, enquanto a sua atenção é duplamente exigida para ler uma partitura ou identificar a posição correta dos dedos.
Da infância à terceira idade: quem pode se beneficiar?
A musicoterapia possui um campo de aplicação extremamente amplo e atende a diferentes faixas etárias e necessidades
Desenvolvimento Infantil e Neurodivergências
Atualmente, uma grande parte da demanda clínica concentra-se no atendimento a crianças. A terapia tem apresentado excelentes resultados em casos de: Transtorno do Espectro Autista (TEA); Síndrome de Down; Transtorno do falta de Atenção com Hiperatividade (TDAH); Transtorno Opositor Desafiador (TOD) e outros distúrbios globais do desenvolvimento infantil e comportamental.
No outro extremo da vida, a musicoterapia atua de forma marcante no tratamento de idosos com demências (como o Alzheimer). Embora muitas dessas condições não tenham cura, a música consegue recuperar memórias profundas e proporcionar momentos de lucidez e dignidade.
“Dar esses momentos dignos, de qualidade de vida para este indivíduo nos seus últimos anos, é super relevante”, relata Ariela, que vivenciou a eficácia do tratamento na própria família.
Rompendo estigmas
Para a profissional, a musicoterapia também atua como uma porta de entrada mais leve para os cuidados com a saúde mental, ajudando a quebrar o antigo tabu de que “terapia é para loucos”. Muitas vezes, expressar um sentimento em palavras é complexo e doloroso, mas torna-se perfeitamente possível por meio de uma melodia ou de uma composição conjunta entre terapeuta e paciente.
O Processo de Identificação Musical
Não existe uma “fórmula de bolo” ou um estilo musical único que funcione para todos. O tratamento é estritamente individualizado e construído com base na história e na cultura de cada paciente. Para um indivíduo, a cura e o equilíbrio podem ser encontrados nas estruturas clássicas de Bach. Para outro, o estímulo ideal pode vir da MPB de Elis Regina.
Quando os pais devem procurar ajuda?
Muitos pais têm dúvidas sobre o momento certo de buscar o tratamento para seus filhos. Ariela orienta que a ajuda profissional deve ser considerada quando a criança expor: problemas de comportamento: muitas vezes associados à frustração por não conseguir se comunicar adequadamente. Atrasos na fala: onde o estímulo sonoro e rítmico pode destravar canais de comunicação.
Pedir ajuda a um profissional não deve ser encarado como uma falha na criação, mas sim como a utilização de recursos terapêuticos modernos e validados — cuja história, inclusive, remonta à reabilitação de soldados mutilados na Segunda Guerra Mundial.
A musicoterapia prova que a arte e a ciência, quando unidas, têm o poder não apenas de tratar sintomas, mas de devolver a voz, os movimentos e a dignidade humana.
A íntegra da conversa:

