“Nós, como Igreja, não ficamos calados. Não podemos ser coniventes com o que está a acontecer aqui em Cabo Delgado. Neste ano, cerca de 12 cristãos foram decapitados. Esta é uma terra de mártires”, revela D. António Juliasse.
Rui Saraiva – Portugal
Passaram nove anos desde o início dos ataques terroristas em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, mas a insegurança continua. Foi a 5 de outubro de 2017 que se registaram os primeiros incidentes naquela região e a lista dos mortos e deslocados vai aumentando. As estimativas mais recentes apontam para mais de 6600 vítimas mortais e mais de 1 milhão de pessoas deslocadas.
Numa entrevista conjunta aos jornalistas Henrique Cunha da Renascença e Octávio Carmo da Agência Ecclesia, D. António Juliasse, bispo de Pemba, faz um ponto da situação.
P: Têm surgido novas vagas de violência. Julga que não há um fim à vista para esta realidade?
R: Não vejo, ainda, um horizonte para o fim disto em pouco tempo. Espero que apareça. Estamos a rezar para que apareça. Não temos qualquer informação, e aquilo que está a acontecer aqui no terreno não nos oferece dados objetivos de que isto esteja a chegar ao fim.
P: Olhando para o terreno, quais são as necessidades mais urgentes? Percebe que há sinais de fome ou de agravamento da subnutrição?
R: Há focos de subnutrição, sobretudo entre as crianças, em várias aldeias e também nos campos de reassentamento. Nós, como Igreja, estamos a tentar ajudar nos lugares onde estamos, mas há vários problemas, e são complexos. Estivemos há pouco tempo, com os bispos da IMBISA, a Reunião Inter-Regional dos Bispos da África Austral, a visitar um campo de reassentamento e encontrámos uma família de um senhor com dez filhos. A mulher morreu e ele ficou com as crianças. Diz que não tem como alimentá-las nem como lhes dar a possibilidade de irem à escola, porque não tem trabalho nem campo para cultivar. Não consegue mobilizar nada estando em terra alheia e, como neste caso, o mesmo acontece com muitas outras famílias.
P: É sobretudo à Igreja que as populações mais recorrem. Pergunto-lhe se há zonas de Cabo Delgado às quais a Igreja e as próprias organizações humanitárias já não conseguem chegar.
R: Muitas organizações humanitárias estão impedidas de ir a zonas onde o risco de segurança é considerado muito elevado, sobretudo nestes últimos dias. Muitas estão confinadas às grandes vilas e à cidade de Pemba por causa dos raptos. Houve, pela primeira vez no ano passado, o sequestro de algumas pessoas de organizações não-governamentais e, por causa desse histórico, existe essa interdição. Nestes últimos tempos há muitos raptos para obtenção de resgate e são exigidos valores muito elevados. Por isso, várias organizações não-governamentais já não têm atividades nesses lugares.
P: Sabemos que, de facto, a situação tende a complicar-se. A Conferência Episcopal de Moçambique publicou, em maio, uma nota manifestando solidariedade com a Diocese de Pemba e recordando que o Governo deve garantir dignidade e segurança. Essa nota surgiu na sequência de um ataque terrorista que reduziu a escombros a missão de São Luís de Monforte. Pergunto se os responsáveis da Igreja Católica sentem que são escutados pelo Governo.
R: A Igreja Católica tem emitido alertas desde o início deste conflito, já no tempo de D. Luís Lisboa, e isso continuou até agora, fazendo ouvir a sua voz de tempos a tempos. Até que ponto é escutada, é muito difícil avaliar. Mas a Igreja vai continuar, e tem de continuar, a fazer presente a sua voz profética diante desta situação.
Temos agradecido bastante porque há uma proximidade muito grande da Igreja local de Moçambique com a situação de Cabo Delgado. De tempos a tempos há visitas e encorajamento ao bispo da Diocese de Pemba. Também temos tido uma presença de muita proximidade da Igreja universal, através do Vaticano, do Papa e dos enviados do Papa.
P: Tem dito que a diminuição da atenção mediática não significa uma diminuição do problema. O que está a acontecer hoje em Cabo Delgado que o mundo não está a ver?
R: O país vive um dilema. Precisa de investimentos para fazer face às dificuldades económicas, e falar muito de terrorismo seria fechar as portas ao investimento nas províncias onde não há terrorismo.
Mas, ao mesmo tempo, há aqui um problema muito sério. As pessoas estão a morrer, e ficar calado diante desta situação é ser conivente com as mortes que estão a acontecer e com este sofrimento. É um dilema que deve ser tratado com muita ponderação.
Nós, como Igreja, não ficamos calados. Não podemos ser coniventes com o que está a acontecer aqui em Cabo Delgado. Neste ano, cerca de 12 cristãos foram decapitados. Esta é uma terra de mártires. Tivemos a igreja de São Luís de Monforte destruída. Mas também tem havido muitas crianças raptadas e muitas pessoas raptadas para obtenção de resgate, pelas quais são pagas somas avultadas. Está aqui a acontecer uma situação de que é muito difícil não falar.
P: Perante tudo aquilo que nos relata, receia que esta guerra venha a cair no esquecimento?
R: Sim. Parece que as pessoas querem novidades. Esta guerra já não é novidade. Já não se fala dela. Foi assim quando começou a guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Quando era novidade, toda a gente falava dela. Agora já está a diminuir a intensidade da informação sobre o que se passa naquela região.
Mas a guerra continua aqui. Devemos interrogar-nos sobre a necessidade de um esforço de mobilização da informação, para que as pessoas percebam que a violência continua. É uma violência muito forte. Se não houver essa mobilização, pode facilmente cair no esquecimento.
P: Gostaríamos de falar um pouco sobre a investigação ao assassinato de D. Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane. A Conferência Episcopal de Moçambique já exigiu explicações às autoridades. O próprio Papa Leão XIV também se pronunciou nesse sentido. Pergunto-lhe se houve alguma evolução concreta nos últimos tempos, desde a Assembleia Extraordinária da Conferência Episcopal, e se o crime alterou a sensação de segurança dos sacerdotes, dos bispos e das comunidades católicas.
R: Sem dúvida. Na nossa última plenária tivemos de responder à questão da segurança dos bispos em todo o país. Altera, e de que forma. A morte de D. Osório por assassinato é um acontecimento a que nunca tínhamos assistido neste país. Como as razões não estão explicadas e a causa do crime não está esclarecida, isso preocupa-nos cada vez mais.
Não sabemos de onde vem este mal, se vai afetar mais bispos ou se foi apenas um caso isolado. Isso preocupa-nos bastante, assim como a falta de esclarecimento. Temos dito sempre que a verdade deve ser encontrada. O povo, todo o povo moçambicano, e nós, cristãos, precisamos de ser esclarecidos sobre as circunstâncias da morte de D. Osório.
Laudetur Iesus Christus

