Censura e autocensura na Rússia

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O nível de controle estatal sobre o que os cidadãos dizem e escrevem em Moscou hoje é maior do que na União Soviética antes de Gorbačev. Todo policial, guarda ou juiz segue essa linha; todos entendem que não é mais possível discutir política ou criticar os que estão no poder, e mesmo as expressões mais inocentes são monitoradas.

Além do bloqueio da internet e dos messenger, na Rússia aumenta cada vez mais a pressão da censura, e publicações sobre qualquer assunto, em qualquer área da vida pessoal ou social, podem levar à prisão. Por exemplo, o refrão da música “Mãe, eu te amo”, da banda Anacondaz, foi censurado no serviço Jandex.Musica, que agora só pode ser ouvido com longas pausas de silêncio, já que as palavras “tráfico de drogas”, “cocaína” e até mesmo a frase “Eu traí meu país” foram ocultadas. Revistas japonesas de quadrinhos manga apresentam páginas inteiras coloridas, e ninguém mais se surpreende que capítulos inteiros tenham sido excluídos de muitos livros.

Também foi instituído um conselho de especialistas para monitorar o conteúdo multimídia na internet, em livros e em filmes, especialmente no que diz respeito à “interpretação da história”, segundo as diretrizes do Ministério da Educação, com a colaboração de docentes da Universidade Pedagógica Mgpu de Moscou e da Academia das Ciências de Moscou.

Dos clássicos à ficção contemporânea, de Pasolini a Ursula K. Le Guin, trechos inteiros “problemáticos” são cobertos com tarjas pretas por editoras e livrarias para evitar sanções e processos criminais. A autocensura torna-se, assim, parte integrante do processo editorial.

São páginas que parecem ter sido criadas por Emilio Isgrò, com aquelas rasuras que transformam o texto em obra de arte. Mas não há aqui nenhuma intenção artística, nenhuma tensão conceitual: as tarjas pretas que aparecem hoje em livros publicados na Rússia são a marca deixada por um sistema que aprendeu a censurar sem declarar, a remover sem proibir abertamente. 2025, segundo o jornal independente Meduza, foi “provavelmente o pior ano de sempre para a indústria editorial russa”.

Obviamente, não faltam tentativas constantes de censurar também mensagens publicações nas redes sociais, mesmo que não contenham conteúdo relacionado à política, guerra ou outros tópicos proibidos.

Um morador da região de Altai, na Sibéria, recebeu a visita da polícia após publicar um vídeo de uma enchente na área. De acordo com dados da Repórteres Sem Fronteiras, a Rússia ocupa agora a 162ª posição entre 180 países em termos de liberdade de expressão. O professor Andrei Richter, da Universidade Kamensky, em Bratislava, comentou sobre essa situação para a Rádio Svoboda, observando que “o que está acontecendo hoje nada mais é do que a consequência do que começou em 2022”.

De acordo com Richter, o nível de controle estatal sobre o que os cidadãos dizem e escrevem é agora maior do que o da União Soviética antes de Gorbačev. Tudo começou antes mesmo do conflito com a Ucrânia, com a controvérsia sobre a Covid e o desejo de consolidar o poder do Kremlin. Enquanto isso, as tecnologias se desenvolveram, tornando possível discutir qualquer assunto sem restrições em todo o mundo. As restições começaram no final da década de 2010, atingindo seu ápice após a invasão da Ucrânia em 2022: “Todos entendem que não se pode mais discutir política ou criticar aqueles que estão no poder, e até mesmo as expressões mais inocentes estão sendo controladas”, lembra o especialista.

Tudo começa com a publicação on-line de imagens de bombardeios ucranianos ou outros ataques em solo russo, com a intenção de impedir a divulgação de informações que poderiam ser usadas pelos ocidentais. Na época soviética, a mesma regra se aplicava: não divulgar notícias sobre quaisquer eventos negativos dentro do país, sejam acidentes ou desastres, epidemias, prisões ou qualquer outra coisa que pudesse lançar uma sombra sobre a situação no país. Agora, a informação voa pela internet sem fronteiras e não só viaja para o exterior, como também cria ansiedade entre os próprios cidadãos russos, como informações sobre inundações.

A censura não é imposta apenas de cima para baixo, pelas autoridades centrais; qualquer pessoa na Rússia hoje que esteja envolvida de alguma forma com a ordem pública, mesmo em nível local, está ciente da necessidade de restringir cada vez mais a liberdade de expressão em todos os níveis, e quanto mais se faz isso, maiores são as esperanças de subir na carreira e aparecer como um “defensor da Pátria”. Todo policial, agente ou juiz adere a essa linha opressiva, sem necessidade de ordens por escrito, e esse clima agora penetrou na consciência de todos os cidadãos, que se adaptam à autocensura sem necessidade tampouco de ameaças explícitas.

Uma posição privilegiada é a dos voenkory, os “correspondentes de guerra” ou Z-Bloggers, que têm maior liberdade para criticar as ações dos líderes militares e políticos, pressionando por uma vitória mais decisiva nas operações militares. No entanto, eles também devem ter cuidado para não ultrapassar certos limites, como “desacreditar as forças armadas”.

A Constituição russa, no entanto, afirma a liberdade de expressão, mas com uma interpretação particular, como a expressa pelo garante dos direitos humanos, Valery Fadeev: em sua teoria da “transfiguração do humanismo”, os direitos são verdadeiramente defendidos apenas na Rússia e, em todo caso, não no Ocidente, onde “qualquer um pode manipulá-los”, enquanto na Eurásia eles são exaltados pela afirmação dos “direitos tradicionais e culturais” de cada pessoa.

*Com informações de AsiaNews

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