Entre IA e guerra nuclear, o empenho das religiões para que “a humanidade prevaleça”

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No congresso Global Nobel Laureates Assembly on Artificial Intelligence and Nuclear War, em andamento no Borgo Laudato si’, nas Vilas Pontifícias de Castel Gandolfo, representantes de diferentes religiões refletiram, na manhã desta terça-feira, 15 de julho, sobre os valores comuns que, como desejado pela encíclica Magnifica humanitas, podem favorecer a valorização da dignidade humana e do bem comum, reconstruindo as “muralhas de Jerusalém” contra a prepotência dos construtores da Torre de Babel.

Daniele Piccini – Castel Gandolfo

Como empenhar-se na reconstrução das “muralhas de Jerusalém”, entendida como uma ação comunitária que valoriza a contribuição de cada pessoa em sua diferença, em vez de erguer a “Torre de Babel”, uma obra desagradável a Deus por desprezar os custos humanos de seus próprios processos? A metáfora é a utilizada por Leão XIV em sua encíclica Magnifica humanitas para indicar dois paradigmas distintos de projetos globais comuns: o primeiro constrói a partir da dignidade humana; o segundo atua ignorando-a. No primeiro modelo, o ser humano é um fim; no segundo, é um meio. Entre essas duas possibilidades se desenvolveu o encontro desta manhã, 15 de julho, no Borgo Laudato si’, nas Vilas Pontifícias de Castel Gandolfo, onde acontece, desde ontem, o Global Nobel Laureates Assembly on Artificial Intelligence and Nuclear War. A sessão teve como tema “Fé e porvir da humanidade na era da IA e das armas nucleares”.

Aliviar o sofrimento humano

Acolhida, colóquio e cooperação na ação. Estes foram os três conceitos propostos por dom Indunil J. Kodithuwakku K., secretário do Dicastério para o colóquio Inter-religioso, como diretrizes para uma ação conjunta de todas as religiões, a fim de que “a humanidade prevaleça”, como afirma o tema deste segundo dia de trabalhos. “Acolhida, como a colunata de Bernini na Praça São Pedro, que com seus braços abraça a todos, acolhendo todos aqueles com quem é possível caminhar juntos. Depois, ingressar em colóquio: escutar e partilhar. Dessa forma, surgem imagens e valores comuns. E é justamente a partir desses valores compartilhados — destacou o secretário — que devemos trabalhar juntos para aliviar o sofrimento humano, libertar as pessoas dos preconceitos e das falsas convicções, e assim por diante.”

Torre de Babel e muralhas de Jerusalém

“A Torre de Babel implica o sacrifício dos mais fracos, a possibilidade de que uma única língua possa traduzir e, assim, dominar todas as outras, além do risco da desumanização”, explicou o rabino David Rosen, do colóquio Inter-religioso Internacional. “A Bíblia — acrescentou — não explica exatamente o que havia de errado na construção da Torre, embora fosse evidente que ela desagradava a Deus. No fundo, tratava-se de uma tentativa de uniformização para criar uma sociedade totalitária. A Bíblia conta que, se um homem caísse da Torre e morresse, ninguém se entristecia; mas, se um tijolo caísse, se quebrasse e se tornasse inutilizável, todos choravam.” “O nome Jerusalém significa ‘cidade da paz’ — prosseguiu o rabino —, um significado que hoje soa bastante irônico diante da situação da região da qual Jerusalém é o centro. Mas permanece a visão de que Jerusalém deve tornar-se um dia verdadeiramente uma cidade da paz e que essa paz possa, por fim, estender-se a toda a humanidade.”

Jerusalém também é definida como “cidade do temor”, afirmou Rosen. “Aqui, o termo ‘temor’ deve ser entendido, no sentido bíblico, sobretudo como reverência. O temor é relevante. Por um lado, não devemos permitir que o medo nos paralise; por outro, nos Salmos lemos: ‘Feliz o homem que vive sempre no temor’. Isso significa: feliz a pessoa que está consciente do perigo. Não porque o perigo deva paralisá-la, mas porque ela sabe com o que está lidando e de onde podem vir as ameaças.” “Acredito — concluiu — que isso também seja relevante para compreender a nossa condição. É um alerta contra a arrogância, contra a soberba, contra a presunção de sermos onipotentes. Recorda-nos os nossos limites. Se aprendermos a nos enriquecer mutuamente por meio dessas diferentes perspectivas e adotarmos uma atitude de modéstia e humildade, teológica ou filosófica, então poderemos contribuir de forma muito mais eficaz para o bem e para o florescimento da sociedade.”

Eliminar as armas nucleares

O programa do movimento religioso budista Soka Gakkai, explicou Yoshiyuki Nagaoka, diretor executivo do Escritório de Assuntos Públicos, consiste em “continuar estendendo a mão para além das fronteiras religiosas, étnicas e nacionais, com o objetivo de fazer da Terra uma única comunidade humana”. Concretamente, o compromisso concentra-se na eliminação das armas nucleares, “uma consciência que desejamos transmitir sobretudo às novas gerações”. “Estamos também profundamente preocupados com o desenvolvimento das armas autônomas”, armamentos temíveis por serem capazes de selecionar e atingir um alvo sem uma intervenção direta adicional do ser humano. “Elas têm suas raízes na mesma lógica das armas nucleares — concluiu Nagaoka — e representam uma desumanidade indiscriminada e uma total ausência de responsabilidade.”

O envolvimento da comunidade

“Acredito que a maneira de reconstruir Jerusalém, se quisermos utilizar essa metáfora, consiste em envolver os administradores, ou seja, os líderes religiosos e o mundo acadêmico”, afirmou Anna A. MacMillan, pesquisadora de políticas relacionadas à IA e membro norte-americana do Conselho de Administração da Fundação Domus Communis. “Também é necessário envolver os guardiões, isto é, os governos, os órgãos reguladores e todos aqueles que podem criar o quadro normativo dentro do qual a tecnologia possa desenvolver-se de maneira legítima. Por fim — argumentou ainda a pesquisadora de religião muçulmana —, é preciso envolver os construtores, para que se sentem à mesma mesa juntamente com uma comunidade plenamente participante.” “Não acredito — opinou a especialista — que exista um único caminho para desenvolver uma Inteligência Artificial, ou qualquer outra tecnologia, que seja segura, ética e responsável. Isso só será possível se todos os diferentes níveis de partes interessadas estiverem realmente envolvidos, comprometidos e sem precisar renunciar aos próprios princípios morais e éticos.”

Não à dissuasão, mas à reconciliação

Ignatius Ki-young Sung, do Institute for Peace-Sharing, da arquidiocese de Seul, apresentou ao público o caso concreto de seu país: a Coreia do Sul. “A Coreia e a Península Coreana — ressaltou o pesquisador — atravessam uma situação muito difícil do ponto de vista político e da segurança, sobretudo por causa da ameaça nuclear proveniente da Coreia do Norte. A dissuasão tem funcionado até agora. A dissuasão nos mantém vivos, permite a nossa sobrevivência. Mas essa não pode ser a conclusão da história. Por isso continuamos a buscar uma reconciliação autêntica entre as pessoas, entre os habitantes da Coreia do Sul e da Coreia do Norte.” “A Coreia do Norte aboliu todos os escritórios e departamentos que tratavam das relações intercoreanas. Para o povo sul-coreano, este é um momento de grande frustração. Mas, como Igreja Católica da Coreia do Sul — concluiu Ki-young Sung —, não deixaremos de nos empenhar e de rezar por uma paz duradoura e pela reconciliação na Península Coreana.”

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