O continente africano é formado hoje por 54 países reconhecidos pelas Nações Unidas, sendo o continente com o maior número de países no mundo, distribuídos em cinco regiões principais: Norte, Meridional (Sul), Central, Ocidental e Oriental.
Padre José Inácio de Medeiros, CSsR – Instituto Histórico Redentorista
Para quem conhece um pouco de história sabe que a maior parte do mundo já foi colonizado, em especial pela Europa. Primeiro veio a colonização da América, depois da Oceania, depois da Ásia e por último veio a colonização da África. E, quando falamos da África, já publicamos aqui nessa coluna 25 textos e gravamos 25 áudios, o continente foi retalhado pelas grandes potências europeias que formaram diversas colônias. Mas existem dois países que apresentam uma grande novidade porque nunca foram colonizados.
O continente africano é formado hoje por 54 países reconhecidos pelas Nações Unidas, sendo o continente com o maior número de países no mundo, distribuídos em cinco regiões principais: Norte, Meridional (Sul), Central, Ocidental e Oriental.
Contexto
Até o fim do século XIX, a maior parte do continente africano era desconhecida, principalmente a região central desse continente. As grandes potências europeias da época, com exceção de Portugal, estavam até então mais focadas em suas colônias na Ásia.
Em 1885, foi realizada a Conferência de Berlim que leva esse nome por ser a cidade alemã o lugar de sua realização. Um dos objetivos dessa reunião entre as potências europeias era a de se reorganizar o mapa geográfico do mundo. Para isso era preciso fazer a divisão e partilha da África entre essas nações colonizadoras. Ao final da referida conferência praticamente todo o continente africano já havia sido repartido em colônias e pertenciam as potências europeias. Mas, no entanto, havia apenas dois países que permaneceram independentes: A Etiópia e a Libéria.
Etiópia livre
A Etiópia, era um país bem antigo e independente possuindo uma bem sucedida relação com outros países.
Fato curioso é que em 1896, a Itália, que também havia ganho alguns poucos territórios no continente africano durante a conferência subestimou a Etiópia, tentando coloniza-la, porém ao invadir o país africano foi repelido e sofreu uma derrota, que chamou a atenção do mundo inteiro na época, pelo fato de um país africano pobre conseguir derrotar um país europeu, visto como uma potência emergente. A Itália havia surgido como país unificado há menos de 30 anos, em 1879, sendo considerado “o primo pobre da Europa”.
Em outros momentos, como no início da Segunda Guerra Mundial, acontecida entre 1939 e 1945, a Itália tentou reconquistas a Etiópia, mas também desta vez foi malsucedida em seu intento, pois a Etiópia contou com a ajuda de outros países.
Apesar dessa aparente liberdade, a Etiópia passou por situações complexas em sua história como no tempo da ditadura de Hailé Selassié, e hoje enfrenta uma grave crise humanitária marcada pela insegurança alimentar aguda, seca e riscos de novos conflitos no Norte (Tigray). O país também lida com tensões geopolíticas, desafios econômicos e instabilidade
Um país formado por ex-escravos
O outro país africano que nunca foi colonizado pelos europeus tem uma história bastante curiosa. Isso porque foi fundado em 1824, por escravos libertos dos EUA. Naquela época, uma organização americana chamada American Colonization Society (em tradução livre, Sociedade Americana de Colonização) havia sido criada com o propósito de levar escravos libertos e negros nascidos livres de volta para a África.
Na época a ideia parecia bem absurda afinal, tanto os ex-escravos quanto os nascidos livres eram americanos. Mas, naquele tempo, o pensamento racista e escravista permitia esse tipo de conclusão. Levar a população negra para a África seria, na visão desta organização, um modo de impedir o aumento da criminalidade ou os casamentos interraciais.
Hoje, essa ideia parece absurda e até mesmo bizarra, mas na época foi bastante apoiada nos Estados Unidos. O projeto foi financiado através da arrecadação de dinheiro em vários estados, recebendo o apoio até mesmo do presidente, James Monroe.
Em meados de 1821, o território da já Libéria havia sido definido, e os primeiros migrantes já haviam chegado. Em 1822, foi criada a capital, Monróvia, nomeada em homenagem ao presidente Monroe.
Apenas em 1824 o país foi fundado oficialmente sob esse nome, que tencionava indicar “país da liberdade”. Apesar da conexão bastante próxima com seu país de origem, os agora liberianos declararam sua independência em 1847. Mesmo assim, sua ligação próxima com os Estados Unidos manteve de fora os demais colonizadores europeus.
Quando a região da Libéria foi demarcada, não havia sido levado em consideração os povos que já viviam na região. A divisão forçada do território foi um dos fatores que levaram aos conflitos e guerras civis enfrentadas no país no século seguinte, gerando um país hoje muito pobre e devastado.
Hoje a Libéria está em processo de estabilização após uma cruel guerra civil, reconstruindo suas forças armadas e consolidando a democracia. Sendo também considerada um dos países mais pobres do mundo, enfrenta desafios econômicos e sociais, com grande dependência da agricultura e mineração. A segurança melhorou, mas viajantes devem ter cautela.
Etiópia e Libéria, os dois países têm histórias muito curiosas: um deles conseguiu expulsar os colonos, e o outro tinha acabado de ser formado por imigrantes negros que fugiram da escravidão no Estados Unidos, mas na atualidade enfrentam os mesmos problemas e desafios que marcam a realidade de outros países do continente.

