A cultura do poder acompanha a vida da humanidade. A grande questão que devemos nos questionar é até que ponto ela está presente na vida da Igreja. Nós, cristãos, acreditamos naquele que está entre nós como aquele que serve. Daí a necessidade de manter distância do poder para não nos afastarmos do Mestre.
Padre Luiz Miguel Modino – Roma
Entre os cardeais presentes em Roma nestes dias para participar do Consistório convocado pelo Papa Leão XIV, percebe-se um clima de felicidade, que nasce do fato de se encontrarem, de poderem trocar experiências e expressar a comunhão, algo que, nas palavras de alguns deles, é sempre excelente. Os cardeais percebem nas reflexões, que ganharam profundidade ao longo das sessões, uma oportunidade para discernir o caminho para servir melhor, para construir um mundo que seja imagem do Reino de Deus.
É interessante a reflexão do prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, cardeal Víctor Manuel Fernández, onde ele analisa a vida social e política. Em suas palavras diante dos cardeais reunidos na Sala Paulo VI, ele fez uma análise sobre a forma de se relacionar, na qual está presente “o recurso constante à desqualificação, às vezes desenfreada, daqueles que pensam de maneira diferente, juntamente com a difusão permanente de falsidades pelas quais ninguém parece responder”.
Aos poucos, as informações falsas vão se impondo, ainda mais quando são repetidas constantemente e divulgadas de diversas formas. Instala-se uma cultura de indiferença, e a desinformação avança até “a ridicularização do antagonista e à construção sistemática de medos e ressentimentos”. Chegamos a um ponto em que a paz e o colóquio são vistos como “posições utópicas ou irracionais”.
Proclamar a dignidade humana
Diante do outro, seja um país ou uma pessoa, reagimos de acordo com a conveniência, independentemente de seus atos. O ensinamento da Igreja deixa clara sua postura: proclamar a dignidade humana em qualquer circunstância. Esse é o caminho para gerar confiança e respeito. Trata-se de alimentar a cultura da fraternidade e do bem comum diante da cultura do poder, uma escolha difícil de assumir, mas que é fundamental para sermos fiéis ao Evangelho.
O Papa foi explícito nesse sentido na missa que deu início ao Consistório. Os serviços eclesiais são bons e gratificantes se partirem da unidade com Cristo e tiverem como critério o bem comum. Uma linha de pensamento inalienável para quem pede todos os dias, em oração, que venha a nós o Reino de Deus.
É de particular importância a maneira como o atual pontífice entende seu ministério petrino, vendo em si mesmo “aquele que pede, não aquele que manda”. Mais ainda, e isso implica uma atitude que revoluciona a maneira de se posicionar na Igreja: “a autoridade do primado, de fato, é própria daquele que escuta e, somente por isso, guia; daquele que aprende e, somente por isso, ensina, sempre seguindo o único Mestre”. Seja quem for, inclusive o Papa, se não estiver disposto a escutar, a se colocar em um plano inferior, ou pelo menos semelhante, nunca será capaz de guiar. Ao mesmo tempo, quem nunca quis aprender, de forma alguma conseguirá ensinar.

