Uma reunião do Conselho de Segurança faz um balanço das crises humanitárias desencadeadas pelas guerras. Os dados da ONU indicam que pelo menos 266 milhões de pessoas não têm comida suficiente para se alimentar, em um contexto em que o número de conflitos armados atingiu o nível mais alto desde a Segunda Guerra Mundial. Pela primeira vez neste século, a fome foi confirmada simultaneamente no Sudão e em Gaza.
Anna Lisa Antonucci – Vatican News
Na Somália, grupos armados exigiram um resgate de uma família de agricultores, com quatro filhos, para que pudessem continuar a cultivar suas terras. O pai e a mãe tiveram que abandonar a fazenda e seguir para um campo de refugiados, mas, durante a longa jornada a pé, uma das crianças morreu. Uma história de dor e opressão, como tantas outras, em que os conflitos e a violência estendem seus efeitos muito além dos campos de batalha. Quem contou essa história foi Carl Skau, diretor interino do Programa Mundial de Alimentos (PAM), que, perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas — reunido para examinar a questão da insegurança alimentar ligada aos conflitos —, utilizou essa história para ilustrar o “círculo vicioso de conflito e fome”.
A fome alimenta mais violência
A guerra destrói os meios para alimentar as pessoas; a fome, por sua vez, aumenta a vulnerabilidade das populações e cria as condições para mais violência. Por isso, declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres, ao discursar na reunião: “A melhor proteção contra a insegurança alimentar é a paz, e a condição mais segura para a paz é um mundo sem fome”. As guerras, de fato, estão abalando o sistema alimentar global, como foi destacado, e os dados da ONU indicam que pelo menos 266 milhões de pessoas não têm comida suficiente para se alimentar, diante de um número de conflitos armados que atingiu o nível mais alto desde a Segunda Guerra Mundial. Pela primeira vez neste século, a fome foi confirmada simultaneamente no Sudão e em Gaza. Em 12 dos 13 pontos críticos de crise alimentar identificados pela ONU como os mais preocupantes, os conflitos e a violência são as principais causas da fome.
Os custos da energia, dos fertilizantes e dos alimentos estão aumentando
Do Mar Negro ao Estreito de Ormuz, a guerra faz com que os custos da energia, dos fertilizantes e dos alimentos aumentem, enquanto a ajuda humanitária diminui, e esse fenômeno está assumindo proporções cada vez maiores. Na Somália, os agricultores estão sendo expulsos de suas terras. No Sudão, os mercados são atacados por drones e mísseis. No Haiti, comunidades inteiras estão sendo isoladas por gangues criminosas. De Gaza ao Mali e a Mianmar, os profissionais humanitários estão sendo impedidos de chegar a determinadas populações. “Os sistemas alimentares essenciais e as vidas e meios de subsistência que dependem deles estão sob ataque”, alertou Guterres. Fazendas, mercados, armazéns, portos e rotas marítimas estão envolvidos em conflitos cujas repercussões econômicas se estendem muito além das linhas de frente. Um ataque a um porto ou a um navio mercante, como foi destacado, pode agora elevar os preços dos alimentos a milhares de quilômetros do local dos confrontos. O Mar Negro é um exemplo disso. A Rússia e a Ucrânia estão entre os principais exportadores mundiais de grãos, e a escalada dos ataques entre os dois países está interrompendo uma artéria vital do comércio de alimentos. Segundo o PAM, os volumes de grãos que transitam pelo Bósforo diminuíram 40% em um ano.
Entre o Estreito de Ormuz e o Mar Vermelho
Ao mesmo tempo, os ataques a navios mercantes estão interrompendo o tráfego no Mar Vermelho, enquanto as tensões no Estreito de Ormuz afetaram uma rota pela qual transita cerca de um quinto do abastecimento mundial de petróleo e um terço do comércio de fertilizantes. No Sudão, destaca a ONU, o preço dos alimentos básicos aumentou quase 40% desde fevereiro. O aumento dos custos do combustível está causando um impacto negativo na irrigação, no transporte e no processamento de grãos, enquanto as interrupções nas exportações de fertilizantes ameaçam as próximas safras na África e na Ásia. Mas não é só isso. Ao arruinar os meios de subsistência e provocar o deslocamento das populações, a guerra torna as comunidades empobrecidas mais vulneráveis ao recrutamento por parte de grupos armados e redes criminosas.


