“A reconciliação só é possível com a coragem de quebrar a cadeia do ressentimento”, diz o Papa na Catedral de Metz, último compromisso da viagem de 4 dias que também passou por Paris e Lourdes. Leão fala sobre se percorrer um caminho de conversão, como aconteceu na própria cidade fronteiriça marcada por disputas e guerras: perante a tirania, “o único caminho de salvação para o homem é o amor que cuida do outro”. Metz é “chamada hoje, mais do que nunca, a ser um farol de esperança”.
Andressa Collet – Vatican News
O Papa Leão XIV encerrou a viagem apostólica à França presidindo missa na Catedral de Santo Estêvão, em Metz, cidade que transformou fronteiras de guerra num espaço de encontro, já que foi historicamente marcada por disputas entre a França e a Alemanha e pelas duas guerras mundiais. Toda a jornada de segunda-feira (28/09), último dos 4 dias no país que também contou com etapas em Paris e Lourdes, foi dedicada à construção da paz, do colóquio e da unidade europeia, ao participar inclusive de dois eventos no Centro de Congressos Robert Schuman, um dos pais fundadores da União Europeia.
A missa pela paz e a justiça em Metz
Antes da celebração eucarística, o Pontífice encontrou os fiéis ao percorrer a região de papamóvel. Na “magnífica Catedral”, conhecida como “Lanterne du Bon Dieu”, a “Lanterna do Bom Deus”, como bem recordou o Papa em homilia devido aos seus 6.500 metros quadrados de vitrais com representações históricas, Leão XIV refletiu sobre as leituras do dia “neste lugar de luz”, num apelo para reacender a mensagem de reconciliação:
“Nesta terra histórica do Mosela, que nunca deixou de ser um ponto de encontro de povos e que foi uma fronteira dolorosa na Europa, a promessa de Deus ressoa hoje com uma força singular.”
O deserto, o jardim e a lar, “lugar de paz”
Ao aprofundar a primeira leitura (cf. Is 32, 15-18), quando o profeta Isaías fala da vinda do Reino de Deus em termos de direito, justiça e paz, o Papa refletiu sobre as três imagens propostas: o deserto, o jardim e a lar. A “imagem austera” do deserto, disse ele, recorda a importância do essencial e da simplicidade para avançar no caminho bem, enquanto o jardim é o lugar da beleza e da plena realização onde reina a justiça. Dois ambientes onde prevalece a ação de Deus. A lar, porém, é o lugar de paz, dom de Deus, mas que exige “uma resposta parte dos homens, num esforço partilhado”, comentou o Papa, “tal como numa família”.
Metz e a coragem da reconciliação
Através do próprio Evangelho (cf. Mt 5, 38-48), Jesus ensina “como transformar o deserto num oásis, como plantar jardins e construir casas”, num caminho que passa pelo perdão, pela misericórdia e pela magnanimidade. «Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra”, diz o trecho do Evangelho que pode parecer “um sinal de fraqueza, ou talvez uma rendição diante do mal; mas, na verdade, não é assim”, comentou o Papa. Os filhos de Metz bem sabem, disse Leão, que não há porvir com atitudes como “vingança, retaliação e rejeição”, e o que acaba se gerando delas: “não é verdade que quem se vinga é mais forte do que quem perdoa. Não é verdade que quem não cede é mais forte do que quem procura a reconciliação. Não é verdade que quem se vai embora batendo a porta é mais forte do que quem se esforça por caminhar em conjunto”.
“Metz e Mosela mostram ao mundo inteiro que a reconciliação só é possível quando se tem a coragem de quebrar a cadeia do ressentimento. É preciso força e grande equilíbrio para não se deixar oprimir pelo mal, sobretudo quando as feridas sofridas são profundas. Mas, perante a tirania, o único caminho de salvação para o homem é o amor que cuida do outro e que procura dar confiança independentemente das circunstâncias, mesmo perante os comportamentos mais difíceis de aceitar. Assim, a lei, a justiça e a paz são etapas de um caminho de conversão que, de pessoal, se torna cada vez mais comunitário, em prol de uma civilização capaz de respeitar o homem e o seu Criador.”
O Papa recordou, então, que “são precisamente esses os valores sobre os quais se construiu, ao longo dos séculos, a Europa que conhecemos, com o seu patrimônio espiritual e ética, ainda antes do econômico e político”. E se manter fiel a esses fundamentos morais, complementou Leão, “não foi fácil, nem sequer para aqueles que nos precederam”. No entanto, o Pontífice enalteceu sobre a importância desse “tesouro” continuar sendo refletido nas futuras gerações, ajudando a levar ao mundo a luz do Evangelho e a partir da “Lanterna do Bom Deus”:
A fraternidade não é uma ilusão
Ao final da missa e antes do Papa se deslocar ao Aeroporto Internacional de Metz-Nancy-Lorraine para a cerimônia de despedida do país, o arcebispo Philippe Ballot agradeceu pela visita do Pontífice que encorajou ainda mais a Europa com a mensagem de paz de Cristo Ressuscitado. Iluminados pelas palavras de Leão XIV, o bispo de Metz falou, então, do comprometimento “em construir pontes e não muros, transformando as fronteiras em locais de encontro”, como justamente aconteceu na região que se tornou símbolo de reconciliação, também presente na origem do projeto europeu de Robert Schuman:
“Lá onde, hoje, há conflitos, a esperança de ver os inimigos dialogarem e se tornarem amigos não é uma ilusão, pois ela se concretizou aqui.”


