O cardeal, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Cultura, fala sobre o amigo, fundador da Comunidade de Bose, falecido esta terça-feira após um período de enrermidade: “uma figura poliédrica, impossível de ser enquadrada em uma única categoria acadêmica ou eclesial. A fraternidade era o fio condutor de seu testemunho”
Cecilia Seppia – Vatican News
“Um rabino que amava os banquetes”: com essa imagem capaz de transmitir a proximidade viva de Cristo com o cotidiano humano, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Cultura, abre seu baú de recordações para prestar homenagem ao amigo fraterno Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, que faleceu na terça-feira, 1º de setembro, aos 83 anos. Um vínculo autêntico que, por pacto de ironia e proximidade de idade, rejeitava as liturgias da retórica póstuma: «No passado, certa vez conversamos sobre essa ocasião, também porque éramos quase contemporâneos em termos de idade — ele de 1943, eu de 1942 —, e bem, ele dizia: ‘quem morrer em segundo prometa não escrever o artigo elogioso para o primeiro’. Ou seja, ele não queria que se fizesse uma homenagem a ele, como costuma-se fazer». No entanto, poucas horas após o anúncio da morte, Ravasi decide “quebrar” aquele antigo pacto para traçar um retrato íntimo que resume “uma longa amizade, iniciada há cerca de 40 anos, que percorreu caminhos muito diferentes, chegando até mesmo à última etapa, talvez a mais difícil para ele, aquela que diz respeito à Comunidade e ao destino de todo fundador de, no fim, estar distante, por vários motivos, de sua comunidade inicial e de constituir outra».
Uma sensibilidade eclética
O prior de Bose surge nas recordações do cardeal como uma figura poliédrica, impossível de ser enquadrada em uma única categoria acadêmica ou eclesiástica. “Ele era muitas coisas. Lembro-me dele apenas como pessoa, extremamente humana”, reflete Ravasi, destacando que o amigo possuía “uma personalidade forte e incisiva, que tinha, acima de tudo, uma característica típica das pessoas geniais: uma sensibilidade eclética”. Esse dom permitia a Bianchi transitar «com grande sutileza entre dimensões políticas, eclesiásticas e, às vezes, até mesmo na cultura e na arte». Nada do horizonte humano lhe era estranho. “Ele nunca era unidirecional”, prossegue o cardeal. Mas o verdadeiro centro de gravidade dessa curiosidade intelectual incansável residia na Escritura: “E, nesse sentido, era também a oportunidade de descobrir qual era o nó que mantinha toda essa multiplicidade, essa fantasia em sua linguagem, unida: a fidelidade à Palavra de Deus”. Ravasi analisa o legado teológico e divulgativo de Bianchi, identificando seu eixo central na ideia de que a Escritura deveria se transformar em alimento diário, não um texto para especialistas, mas pão partido para o povo: “Ele conseguia fazer com que todos, crentes e não crentes, compreendessem que o verum, a verdade, nunca se distingue do bonum e do pulchrum. Ele conseguia semear beleza”.
O amor pela culinária
Ravasi nos revela um detalhe privado sobre o amigo, aparentemente distante da solenidade dos estudos bíblicos, mas, na verdade, profundamente teológico: a comida. Bianchi havia escrito um livrinho destinado aos mais jovens, intitulado justamente “Um rabino que amava os banquetes”, no qual Cristo era descrito como Aquele que adorava sentar-se à mesa. «Na Bíblia existe essa dimensão da comida; pensemos na Eucaristia como elemento fundamental. Pois bem, ele era realmente um excelente cozinheiro, inclusive segundo o célebre gastrônomo, ícone da culinária italiana, Carlin Petrini, que o conhecera e o considerava até melhor do que ele mesmo na cozinha. E Enzo sempre dizia: ‘mais do que como escritor, gostaria de ser lembrado como um grande cozinheiro’. Ele também cozinhou várias vezes para mim quando eu ia a Bose para fazer as meditações durante a Quaresma”.
Testemunha da fraternidade
O purpurado também elogia o amor de Bianchi pela natureza intocada, a Criação, bem visível no verde dos campos e das árvores que cercam Bose, e conclui com a grande intuição ecumênica que levou ao surgimento da vila na província de Biella «A fraternidade, que também dá título a uma de suas últimas obras literárias, era o fio condutor de seu testemunho, que ele conseguia manifestar sobretudo com o mundo ortodoxo oriental, mas também com os protestantes; até mesmo o arcebispo de Cantuária, primaz da Igreja Anglicana, esteve em Bose por um período para meditar. Ao seu imenso público, ele sempre falava de Cristo, irmão de todos, que gostava de sentar-se à mesa até mesmo com aqueles que não eram bem-vindos, compreendidos ou que estavam distantes”.
Um versículo bíblico para resumir o sentido profundo da jornada terrena e do ministério de Enzo Bianchi encerra a entrevista do cardeal Ravasi à mídia vaticana: “Se tivesse que escolher, escolheria aquele que o cardeal Martini havia considerado como seu último testamento simbólico bíblico, o versículo 105 do Salmo 119, ou seja, ‘a tua palavra é lâmpada para os meus passos, guia no caminho da vida’. Mas há também outro que ele amava particularmente, extraído de Isaías: ‘… Se tu rasgasses os céus e descesses’. Eis que eu juntaria esses dois versículos porque, uma vez que desceu à terra, Cristo é a lâmpada para os passos no caminho da vida, e ele sabia disso muito bem».

