Hind Kabawat, única Ministra da Síria, declara à mídia do Vaticano: “O colóquio entre grupos étnicos e religiosos está contribuindo para a reconstrução do país, após uma década de guerra civil”.
Joseph Tulloch – Cidade do Vaticano
Sobre a mesa de Hind Kabawat, advogada, professora e ativista, além de única mulher e única ministra cristã no Governo de transição da Síria, não há fotografias de figuras políticas ou familiares. Porém, há uma foto do Padre Paolo Dall’Oglio, sacerdote Jesuíta italiano, que dedicou a sua vida para a construção das relações inter-religiosas na Síria.
“Ele foi meu mentor”, disse Kabawat Em entrevista à mídia do Vaticano, à margem de uma conferência inter-religiosa em Roma, Hind Kabawat disse: “Ele foi meu mentor e meu mestre sobre colóquio”. O colóquio é um conceito central para Kabawat, que, antes de ser nomeada Ministra do Trabalho e Assuntos Sociais, em 2025, após a queda do regime de Assad. Ela dedicou grande parte da sua carreira à construção da paz e a iniciativas inter-religiosas. O colóquio é uma das preocupações fundamentais do governo, no qual ela agora atua: ela assumiu o poder após uma rápida campanha militar em fins de 2024. O Governo de Transição da Síria, composto por uma larga maioria de ex rebeldes islamistas, deve traçar um caminho a seguir em um país dividido entre tendências islamistas e seculares e fragmentado em inúmeros grupos étnicos e religiosos: sunitas, curdos, drusos, ismaelitas, yazidis, alauítas, cristãos e outros.
A este respeito, Hind Kabawat fez questão de recordar à mídia vaticana o anúncio, feito no final de agosto, segundo o qual o processo de integração das instituições civis e militares curdas, anteriormente autônomas no Estado sírio, foi concluído: “Agora estamos em sintonia”, diz a Ministra ao descrever a “integração como uma das maiores conquistas do governo de transição”, até o momento.
No entanto, as relações entre os grupos étnicos e religiosos na Síria pós-Assad nem sempre foram fáceis: em março de 2025, ataques contra a minoria alauíta da Síria deixaram cerca de 1.500 mortos; por outro lado, uma investigação da Reuters descobriu que forças aliadas ao Governo estavam envolvidas nos assassinatos. No sul do país, a população drusa entrou em confronto com tribos beduínas, enquanto o Estado Islâmico permanece uma ameaça constante no Leste, lançando ataques contra as forças governamentais e curdas.
Hind Kabawat acrescenta ainda: “Há tensões” e violações dos direitos humanos. Devido aos anos de guerra, pobreza e opressão, algumas pessoas se tornaram mais sectárias. A Síria é um país com de grandes sofrimentos e feridas profundas, mas está confiante de que o colóquio possa prevalecer. “A situação está melhorando, graças ao nosso colóquio nacional e às iniciativas da sociedade civil”.
Após mais de uma década de guerra civil, reconstruir a nação é uma tarefa assustadora. Além das divisões sociais e das questões de segurança, o Governo de Transição precisa achar uma maneira de lidar com a grave crise econômica da Síria e criar instituições eficientes.
A Ministra Hind Kabawat fala, de modo concreto, sobre o significado do colóquio: “Todo sírio deve estar aberto a certo grau de compromisso. Se as pessoas forem muito radicais, devem saber que não podem radicalizar toda a Síria. Se forem muito leigas, devem saber que não podem tornar leiga toda a Síria. Aqui, podemos achar um terreno comum: precisamos de uma boa Constituição, de um Estado de Direito e que todos sejam iguais”.
Segundo Hind Kabawat, as vozes das mulheres são parte essencial deste processo. Ela recorda o papel fundamental que as mulheres desempenharam na preservação do tecido social da Síria, durante a guerra civil, expressando sua decepção por elas não estarem melhor representadas no novo Governo de Transição: “No primeiro dia, perguntei: ‘Por que não há mais mulheres? Disse ela à BBC, no início deste ano, acrescentando que o presidente al-Sharaa a tranquilizou, garantindo que mais mulheres seriam nomeadas para cargos de liderança no porvir. Embora ainda estejam gravemente sub representadas, a Ministra continua sendo a única voz feminina do governo; as mulheres representam apenas uma pequena porcentagem da recém-criada Assembleia Popular”. Depois recorda o progresso alcançado em seu Ministério, onde, metade dos quatorze diretores regionais, em breve, serão mulheres.
Para a Ministra, a diversidade religiosa é outra questão fundamental e, acredita, que deve ser mantida no centro do debate sobre o porvir da nação. E assim descreve a Síria: “Um país de maioria muçulmana sunita com minorias significativas, como um ‘mosaico’ de diferentes denominações religiosas; a população síria tem uma mentalidade ‘não sectária’.” Falando de sua família, diz: “Alguns são ortodoxos, outros católicos e ainda protestantes. Se eu ver uma igreja, eu entro e rezo”. Aqui ela fala da abertura à diversidade religiosa: “Existe em nível nacional. Na vida de todo cristão muçulmano, há um médico, um professor ou um amigo cristão e vice-versa”.
Neste contexto, a Ministra Hind Kabawat afirma que a Santa Sé tem um papel relevante a desempenhar na reconstrução da nação. Poucos dias antes de sua visita a Roma, o novo Núncio Apostólico na Síria, o Arcebispo Luigi Roberto Cona, apresentou suas Cartas Credenciais ao Presidente sírio e se encontrou com a Ministra, que diz sobre ele: “É um homem muito ativo, muito enérgico. Estamos planejando fazer muito trabalho juntos”. E ela acrescenta ainda: “Organizações católicas trabalham com pessoas vulneráveis, pobres, refugiados… Quando a Síria precisou delas, elas estavam lá para nós”. Sobre a possibilidade de uma visita papal à Síria, em momento oportuno futuramente, Kabawat diz simplesmente: “Eu teria um ataque cardíaco de felicidade”.
O que mais impressiona na sua entrevista à mídia vaticana, é o que a Ministra Hind Kabawat fala a respeito do Padre Paolo Dall’Oglio, sacerdote italiano, cuja foto se sobressai em sua escrivaninha. Como ela, Padre Dall’Oglio era um defensor sincero do colóquio inter-religioso; como ela, ele também era crítico declarado do regime de Assad. Após sua expulsão da Síria, nos primeiros anos da revolução local, o Jesuíta voltou à cidade de Raqqa, controlada pelos rebeldes, onde desapareceu sem deixar rastro. Hind Kabawat fala, comovida, sobre seu último encontro com ele: “Anos depois, ao me achar em Raqqa, visitei o Bar onde o sacerdote foi visto pela última vez rezando”.
Os desafios econômicos, institucionais e sociais, que o novo governo sírio enfrenta são consideráveis. No entanto, como seu mentor Jesuíta, Hind Kabawat acredita no poder do colóquio e da colaboração de poder tratar até as questões mais espinhosas. Por fim, a Ministra Hind Kabawat conclui: “Se trabalharmos juntos, poderemos realizar grandes coisas. Se não trabalharmos juntos, não chegaremos a lugar nenhum”.

