Cardeal Orani João Tempesta: a bênção do ministério episcopal do Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist. – Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ
Uma grande felicidade nos invade neste dia 5 de agosto de 2026! O Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, lar de todos os brasileiros e porta de entrada para tantos peregrinos da fé, celebra os quarenta anos de ordenação episcopal do Eminentíssimo Senhor Cardeal Raymundo Damasceno Assis, Arcebispo Emérito daquela que é chamada, com razão, a capital mariana do nosso país.
Quero, neste momento, unir minha voz de irmão bispo e amigo a todos aqueles que hoje agradecem a Deus pela vida e pelo ministério de Dom Raymundo. Como ele mesmo aprendeu, na simplicidade do povo mineiro de Capela Nova, a servir com humildade, também nós aprendemos, ao longo destas quatro décadas, o quanto sua vida episcopal foi um dom para toda a Igreja no Brasil.
Um pastor formado na escuta da Palavra: Em 15 de setembro de 1986, na cidade de Conselheiro Lafayete, Dom Raymundo recebeu a plenitude do sacramento da Ordem pela oração da Igreja e a imposição das mãos do Cardeal Dom José Freire Falcão, segundo Arcebispo de Brasília, sendo consagrantes Dom José Newton de Almeida Baptista, primeiro Arcebispo de Brasília e Dom Geraldo do Espírito Santo Ávila, Bispo Auxiliar de Brasília. Desde então, sua trajetória tem sido marcada por aquela disponibilidade que a Escritura nos ensina quando o jovem Samuel responde ao chamado do Senhor: “Fala, Senhor, que teu servo escuta” – 1Sm 3,10. Foi essa escuta atenta, cultivada no silêncio da oração e na proximidade com o povo, que fez de Dom Raymundo um bispo querido por onde passou.
Bispo auxiliar em Brasília, Secretário Geral do CELAM, Secretário Geral da CNBB, Arcebispo de Aparecida, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e também presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano, o Cardeal Raymundo sempre exerceu seu ministério com aquele espírito de comunhão que é a marca de um verdadeiro pastor. Não é sem razão que hoje ele é reconhecido como um dos mais importantes bispos que a Igreja no Brasil já teve.
A hospitalidade que trouxe Bento XVI ao Brasil: Quero destacar, com particular gratidão, o papel que Dom Raymundo desempenhou na organização da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Aparecida no ano de 2007. Foi ele, como arcebispo local e eleito presidente do CELAM, quem preparou o caminho para que o Papa Bento XVI viesse pessoalmente abrir aqueles trabalhos, trazendo ao nosso continente palavras que ainda hoje iluminam a missão evangelizadora da Igreja na América Latina.
Aquela visita não foi apenas um acontecimento protocolar. Foi um verdadeiro Pentecostes latino-americano, onde a Igreja, reunida ao pé do Santuário, renovou seu compromisso com o discipulado missionário. Lembremos as palavras do apóstolo Paulo aos romanos, quando fala daqueles que foram “chamados para o apostolado” – Rm 1,5-6. Assim foi Dom Raymundo: um homem chamado, e que soube colocar sua vocação a serviço da unidade entre os povos e as culturas deste continente tão vasto e tão amado por Deus.
Um lema que se tornou vida: Assim como carrego em meu próprio ministério episcopal o lema Ut Omnes Unum Sint, retirado do Evangelho de João – Jo 17,21 –, reconheço em Dom Raymundo um irmão que viveu intensamente esse chamado à unidade. Foram anos de trabalho incansável pela comunhão entre as Igrejas particulares do Brasil, pela aproximação entre a Conferência Nacional dos Bispos e as demais Conferências Episcopais da América Latina, e por uma Igreja sempre atenta aos sinais dos tempos.
A unidade que ele buscou construir não foi uma unidade de aparências, mas aquela unidade profunda que nasce do Evangelho vivido e partilhado. Como ensina o apóstolo Pedro em sua primeira carta, somos chamados a estar sempre prontos para dar razão de nossa esperança – 1Pd 3,15. Foi essa esperança que Dom Raymundo semeou onde passou, sobretudo diante de um continente marcado por desigualdades e desafios, mas também riquíssimo em fé popular e devoção mariana.
Aparecida, lar da Mãe e escola de missão: Não posso deixar de recordar o quanto Dom Raymundo dedicou-se à valorização da piedade popular, especialmente à devoção a Nossa Senhora Aparecida. Sob sua liderança, o Santuário Nacional tornou-se, cada vez mais, uma verdadeira escola de evangelização, recebendo milhões de peregrinos vindos de todos os cantos do Brasil e do mundo.
É relevante pensar que, assim como Maria disse “sim” ao anúncio do anjo, também Dom Raymundo disse “sim” ao chamado episcopal, e esse “sim” gerou frutos que hoje colhemos com gratidão. Como recorda o Salmo, “eis-me aqui para fazer a tua vontade” – Sl 40(39),8. Esta disponibilidade constante foi, sem dúvida, a chave de uma vida episcopal fecunda.
Um convite à missão que continua: Celebrar quarenta anos de ordenação episcopal não é apenas olhar para o passado com gratidão, mas também renovar o compromisso com a missão que continua diante de nós. A Igreja no Brasil, e de modo especial nós, bispos, presbíteros, religiosos e leigos, somos convidados a seguir o exemplo de dedicação e de amor à Igreja que Dom Raymundo nos deixou como legado.
Que este aniversário, grande efeméride eclesial, seja também um chamado para que todos nós, cada um em sua realidade, sejamos construtores de unidade e de esperança em nossas comunidades, em nossas cidades, em nosso amado Brasil. Como Arcebispo do Rio de Janeiro, uma cidade de tantos contrastes e também de tanta fé, sinto-me particularmente tocado por este testemunho de fidelidade ao longo de quatro décadas.
Rogo a Nossa Senhora Aparecida, Mãe e Padroeira do Brasil, que continue intercedendo pela vida e pela saúde do Cardeal Raymundo Damasceno Assis, e que sua história continue inspirando novas gerações de pastores a servir a Igreja com a mesma generosidade e o mesmo amor.
Que Deus continue derramando suas bênçãos sobre este irmão bispo, e que todos nós sejamos, cada dia mais, uma Igreja que semeia esperança nesta grande terra brasileira.

