O bispo de Djibuti e administrador apostólico de Mogadíscio, dom Jamal Daibes, descreve o cenário de um país atingido por uma violenta mudança climática e pela falta de recursos para atender às necessidades básicas da população, entre as quais se destaca a proteção das crianças. Na linha de frente, todos os dias, a Igreja local por meio da Caritas: “estamos tentando ajudar 100 mil pessoas”.
Paola Simonetti – Vatican News
As palavras do Papa Leão de domingo, 20 de setembro, durante o Angelus, com seu apelo à comunidade internacional para que intervenha na Somália, parecem ter aberto de repente uma janela para uma emergência “fantasma”: a desastrosa situação humanitária no país africano desaparece no mar de notícias relacionadas aos milhares de conflitos que abalam o mundo, lançando uma sombra sobre as dramáticas necessidades da população, atualmente devastada pelas consequências de uma severa seca, que traz falta de alimentos e água, em um contexto de conflitos, instabilidade geral, deslocamentos e migrações internas. É uma pobreza absoluta a que vivem milhões de civis somalis, aos quais as organizações humanitárias têm dificuldade em dar respostas devido à falta de recursos. Esse é o quadro traçado para a mídia vaticana por dom Jamal Daibes, bispo de Djibuti e administrador apostólico de Mogadíscio, além de presidente da Caritas Somália. “Em primeiro lugar, agradecemos ao Santo Padre por seu apelo em favor da Somália”, diz o bispo, “ele é verdadeiramente um pai de toda a Igreja. Sua atenção aos mais pobres é um incentivo para nós”.
Em que condições se encontra o país?
A situação da Somália piorou drasticamente ao longo deste ano. O número de pessoas necessitadas chegou a quase 5 milhões. As crianças que precisam de ajuda somam quase 2 milhões, e as causas são diversas: a seca, as mudanças climáticas e, ainda, os conflitos. Isso acarreta consequências muito graves para a população: epidemias, insegurança. A situação se agravou. Ao mesmo tempo, percebemos que o mundo não se interessa muito pela Somália. O Santo Padre falou sobre a Somália em um momento muito relevante e crítico, quando o mundo quase havia esquecido a situação humanitária no país. Existem algumas organizações da ONU que estão atuando: elas estão prestando assistência, por exemplo, a 2 milhões de pessoas, aquelas que mais precisam de ajuda. Mas, até agora, elas conseguiram arrecadar apenas 24% a 27% do orçamento previsto para 2026. Faltam recursos para ajudar essa população, sobretudo mulheres e crianças.
Quais são as necessidades humanitárias mais urgentes neste momento, aquelas que devem ser atendidas de forma imediata?
De imediato, pensa-se antes de tudo em dar algo para comer. Isso é relevante. Mas há muitas necessidades, sobretudo para mulheres e crianças. A saúde, por exemplo, mas também a necessidade de água e cuidados com a higiene. Elas precisam praticamente de tudo. E, além disso, proteger as crianças. Não é algo fácil, mas é uma prioridade, inclusive para todos aqueles que trabalham na Somália. Faltam recursos, mas essas são as necessidades. Com o deslocamento, a população se muda de um lugar para outro. Por isso, também é preciso achar abrigo, pelo menos uma barraca para as pessoas. Esperamos que, com o apelo do Santo Padre, haja mais pessoas e organizações que nos ajudem nessa tarefa.
Quantas pessoas a Caritas local está atendendo atualmente?
Pela Caritas da Somália, estamos atuando em algumas regiões, as mais afetadas pela seca e pela insegurança. Estamos trabalhando com parceiros locais da Somália para atender pouco mais de 100 mil pessoas. Com a ajuda de outras Caritas, lançamos um apelo a todas as Caritas do mundo, a todas as organizações da Igreja Católica, para que a Caritas da Somália possa ajudar mais pessoas. 100 mil de um total de 6 milhões não é muito, mas não podemos ficar de braços cruzados. Tentamos fazer o nosso melhor nessa situação. Mesmo que os escritórios estejam em Djibuti por motivos de segurança, trabalhamos intensamente em algumas áreas que mais precisam de ajuda. A Igreja está presente por meio da Caritas da Somália.

