Grupo de ucranianas com o Papa: “Lutamos por nossos entes queridos desaparecidos ou presos”

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Yulia, Olesya, Alla, Violetta, Tetiana e outras cinco companheiras, presidentes ou colaboradoras de ONGs na Ucrânia, participaram da Audiência Geral e rencontraram Leão XIV, a quem entregaram uma mensagem e um quadro enviado por um soldado que está na linha de frente em Kharkiv. Na entrevista à Rádio Vaticano, elas relataram o sofrimento pelos maridos, namorados e irmãos presos na Rússia: “Sentimo-nos apoiadas pelo Papa. Não vamos parar e lutamos para que todos os desaparecidos voltem para cas

Salvatore Cernuzio – Cidade do Vaticano

“Te ordeno a voltares vivo”. Yulia Rostovska havia sido categórica com o marido, Serhij Rostovskij, preso há cinco anos em Mariupol pelos russos e do qual nunca mais teve notícias. Ele ainda está vivo, Yulia sabe disso. O que ela não sabe é onde ele está, já que é transferido de uma prisão para outra. Tampouco sabe quando ele voltará para lar, para junto dela e dos dois filhos, Roman e Adelina, pois um tribunal de ocupação o condenou a 27 anos de prisão por “acusações inventadas”. “Tenho medo de que meu marido volte quando tiver 60 anos”, conta a mulher aos meios de comunicação do Vaticano, onde foi recebida depois de participar da audiência geral na Praça São Pedro, ao final da qual pôde cumprimentar pessoalmente o Papa Leão XIV.

Unidas pela guerra

 

Yulia não estava sozinha. Com ela estavam outras dez mulheres ucranianas — esposas, irmãs e noivas — que esperam desde 2022, primeiro ano desta guerra brutal que parece não ter fim, pelo retorno de seus maridos, irmãos e noivos. Elas não são parentes entre si, nem amigas, e vêm de lugares diferentes: “É o problema que nos une… a guerra”, exclama Olesya Aulina, esposa do tenente Damir, desaparecido em 2023 sem deixar vestígios.

Cada uma delas é presidente ou colaboradora de uma ONG ou de outras associações que, atuando na Ucrânia ou na Polônia, distribuem ajuda humanitária, trabalham pelo retorno dos desaparecidos ou prisioneiros de guerra e reúnem seus familiares. “Todas colaboramos ou dirigimos organizações estatais ou sem fins lucrativos. Nós nos conhecemos, nos encontramos durante as reuniões, quando precisamos compartilhar nossos problemas”, conta Yulia.



Ucranianas entregam a pintura do soldado Ivan ao Papa.   (@Vatican Media)

O bilhete e o quadro de Ivan, na linha de frente em Kharkiv

 

De 21 a 26 de setembro, o grupo está em Roma para reuniões institucionais no Parlamento italiano e nas Embaixadas junto à Itália e à Santa Sé. Hoje, foram à Praça São Pedro, acompanhadas pelo embaixador ucraniano Andrii Yurash, para cumprimentar Leão XIV.

“Ficamos impressionadas com a dimensão dessa audiência. Foi espetacular ver representantes de todo o mundo”, relatam. Ao Papa, entregaram uma mensagem e um presente do próprio autor, Ivan Bodnariuk, soldado ucraniano de 35 anos e comandante da Guarda de Fronteira na martirizada Kharkiv. Talvez Ivan estivesse na linha de frente, ou talvez estivesse fugindo de algum míssil, no mesmo momento em que uma de suas compatriotas colocava nas mãos do Pontífice a obra que ele próprio realizou: uma reprodução da obra de Rembrandt, O apóstolo Pedro, bordada sobre tela.

Na mensagem dirigida ao Papa, o significado do presente é explicado:

“Obrigado por tudo o que o senhor faz pelos militares e por suas famílias. Esperamos que todos voltem para lar! Peço que aceite este modesto presente, feito por minhas próprias mãos como sinal de gratidão e respeito por seu compromisso diplomático em favor da Ucrânia e de nossos companheiros de armas.”

Como embaixadoras

 

“O Papa nos agradeceu”, contam as mulheres. Elas não tiveram tempo de dizer algo a Leão XIV, mas conseguiram colocar em suas mãos cartas e desenhos de crianças.

Elas dizem sentir-se apoiadas pelo Papa e, de modo geral, pela Santa Sé, em seus esforços diplomáticos e humanitários. “Realmente sentimos esse apoio e batemos a todas as portas, procuramos todas as oportunidades para poder trazer nossos entes queridos de volta para lar.”

Diante do Pontífice, apresentaram-se todas vestidas de preto, com um broche em forma de laço azul e amarelo, as cores da bandeira da Ucrânia, tendo ao centro uma espiga, um dos símbolos do país.

“O preto não é sinal de tristeza, mas porque nossa é uma missão diplomática; somos como embaixadoras”, explica Alla Didenko, coordenadora das relações com as famílias do Azov. Ela está em Roma para dar voz a Oleksii, seu noivo, também militar, mantido prisioneiro na Rússia desde maio de 2022. Ele foi capturado quando estava ferido no braço e permanece detido depois de três condenações.

Chama a atenção o fato de Alla, apesar de muito jovem, não ter pensado em reconstruir a própria vida nesses cinco anos. Mas quer concluir seu compromisso, por Oleksii e pelos demais: “Apesar de tudo, encontramos dentro de nós mesmas a força para lutar. Acreditamos firmemente que conseguiremos trazer todos de volta, todos os que estão presos, e que encontraremos aqueles que estão desaparecidos”.

Momento do encontro

Momento do encontro   (@VATICAN MEDIA)

O esforço para que todos voltem

 

O mesmo afirma Violetta Sukhorebrova, a mais jovem do grupo, com 24 anos. Ela é cofundadora da associação A Força dos Fuzileiros Navais e presidente da ONG Condenados, mas não esquecidos, que reúne familiares de ucranianos condenados injustamente.

Violetta é noiva de Dmytro Shegai, militar que, em março de 2022, havia recebido uma licença de dez dias para voltar e se casar com ela. A guerra em larga escala destruiu todos os planos. Em 2023, ele foi preso e condenado a 22 anos de reclusão por acusações falsificadas de “assassinato de civis” em Mariupol.

Violetta permanece em silêncio durante quase toda a entrevista. Fala apenas para reafirmar seu compromisso, que define como uma “luta” para “trazer de volta todos os prisioneiros e, sobretudo, aqueles que receberam essas condenações ilegais”.

Medo e força de espírito

 

Sobre o coração dessas mulheres pesam, além das dificuldades da guerra e da incerteza de viver em meio à falta de eletricidade e de aquecimento, profundas preocupações. Yulia as expressa claramente:

“Preocupa-me pensar que, quando meu marido voltar, terá 60 anos. Preocupa-me muito que as esposas, as irmãs e as mães não consigam mais rever seus entes queridos. Preocupa-me que nossos filhos cresçam sem um pai.”

“É possível fazer o impossível? Nossos jovens fizeram o impossível. Foram ao encontro da morte. Fizeram isso para proteger todos nós”, acrescenta Tetiana Goidik, irmã de Oleg, paraquedista desaparecido em combate. Há anos, ela organiza em Zhytomyr iniciativas de sensibilização em apoio às pessoas desaparecidas.

“Essas pessoas não apenas não aparecem nas trocas de prisioneiros, como simplesmente não são encontradas. Mas ninguém desaparece do nada… Meu pai passou mal quando soube que seu filho estava desaparecido. E olho para minha mãe: sua vida vai embora gota a gota.”

O medo é grande, mas também é grande a força de espírito. “Estamos aqui para dizer ao mundo inteiro que a Ucrânia continua lutando”, afirmam as mulheres. “E que, apesar de tudo o que nos aconteceu, resistimos por nossos entes queridos.”

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