Notre-Dame, o Papa e o poder do silêncio para além dos incêndios e das gárgulas

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A catedral símbolo de Paris, cujo teto foi destruído pelo fogo em 2019, receberá amanhã, sexta-feira, 25 de setembro, Leão XIV para a celebração das Vésperas. Um momento de contemplação e recolhimento no coração de um dia frenético, um espaço para redescobrir o verdadeiro valor da beleza, para além do visível.

Edoardo Giribaldi – Enviado a Paris

“O teto queimou: agora posso ver a lua”. Neste haiku do poeta japonês Mizuta Masahide concentra-se a imagem desconcertante do topo de um dos símbolos do cristianismo mundial, devorado pelas chamas em abril de 2019. Junto com ela, a abertura que hoje se pode entrever entre as fissuras daquela “floresta”: o conjunto de vigas medievais que, para ser reconstruído, exigiu que os carpinteiros retomassem as mesmas ferramentas e gestos dos construtores medievais, trabalhando a madeira e os baixos-relevos manualmente, como antigamente.

Daquelas cicatrizes, tornadas quase invisíveis pelo trabalho minucioso dos restauradores, parece filtrar-se hoje uma luz silenciosa, mas constante, na escuridão, como a lua na noite. Ao atravessar os portões da Catedral de Notre-Dame de Paris, na véspera das Vésperas presididas pelo Papa Leão XIV com a comunidade eclesial, deixa-se para trás o barulho dos turistas, vendedores ambulantes e guias, e percebe-se todo o peso de muros que atravessaram a história do mundo.



Interior da Catedral de Notre Dame   (@VaticanNews)

Leveza artística

 

Do limiar, o olhar é atraído até a extremidade oposta da nave: a área diante do altar-mor, próxima ao coro. Ali, em 2 de dezembro de 1804, Napoleão Bonaparte tomou a coroa das mãos do Papa Pio VII e a colocou sozinho sobre a própria cabeça.

Notre-Dame carrega, portanto, uma pesada aura histórica. E, no entanto, a catedral também transmite leveza: a flecha que se aproxima dos cem metros, as duas torres alinhadas com o céu e uma arquitetura que reduz ao mínimo o peso das paredes estruturais para deixar espaço aos grandes vitrais multicoloridos e às encantadoras rosáceas.

No mesmo coração da catedral encontram-se, contudo, pontos de contato entre o Estado e a Igreja na história francesa. Entre eles está a estátua de prata da Virgem com o Menino, forjada em 1814 pelo rei Luís XVIII, depois de restabelecer o chamado “Voto de Luís XIII”, isto é, a consagração da França à Virgem, originalmente realizada em 1638.

Pessoas observam a Catedral de Notre-Dame de Paris decorada com bandeiras do Vaticano, em Paris, enquanto prosseguem os preparativos para a visita do Papa Leão à França, em 23 de setembro de 2026. REUTERS/Sarah Meyssonnier

Pessoas observam a Catedral de Notre-Dame de Paris decorada com bandeiras do Vaticano, em Paris, enquanto prosseguem os preparativos para a visita do Papa Leão à França, em 23 de setembro de 2026. REUTERS/Sarah Meyssonnier

A quietude em meio à agitação

 

Os raios que atravessam as naves lembram os jogos de luz que iluminam as da Sagrada Família de Barcelona. Da inauguração da torre-símbolo da cidade espanhola, ápice do gênio de Gaudí, ocorrida em junho passado, às Vésperas de Notre-Dame: a catedral parisiense insere-se assim no trajeto internacional de Leão XIV, que na sexta-feira, 25 de setembro, presidirá a celebração ao entardecer, no centro do primeiro e intensíssimo dia de sua viagem à França.

Será um momento de reflexão e recolhimento. De um silêncio “grávido de sentido”, como o próprio Papa já o havia definido em uma audiência geral, inserido entre a agitação da visita ao Eliseu e à sede da Unesco e, mais tarde, a imersão no entusiasmo do estádio de Saint-Denis, durante a vigília com os jovens parisienses.

A capela de São Jorge, dedicada aos cristãos do Oriente

A capela de São Jorge, dedicada aos cristãos do Oriente

Quasímodo, Esmeralda e as verdadeiras imperfeições

 

“A imperfeição não é um defeito”, havia afirmado Leão XIV na homilia da Missa celebrada na Sagrada Família, referindo-se a uma Basílica que durante muitos anos permaneceu como um canteiro de obras a céu aberto.

Em Notre-Dame, ao contrário, tudo parece perfeito. E, no entanto, também aqui a deformidade tem um rosto amado tanto pelos adultos quanto pelas crianças, graças à adaptação para o cinema de animação. O “corcunda” Quasímodo, protagonista do romance de Victor Hugo e do filme da Disney nele inspirado, encarna a condenação dos preconceitos: a sociedade que rejeita, ridiculariza, humilha e não compreende aquilo que parece diferente, demonstrando muitas vezes uma crueldade coletiva maior do que aquela do próprio indivíduo marginalizado. Ou de toda uma comunidade, como a dos ciganos representada por Esmeralda.

Já em janeiro, ao presidir as Vésperas na solenidade da Conversão de São Paulo, Leão XIV havia condenado as discriminações e divisões que obscurecem o rosto da Igreja muito mais do que uma deformidade física como a de Quasímodo.

Em Notre-Dame, para reafirmar essa mensagem, o Pontífice também saudará os eparcas do Oriente presentes em Paris durante a viagem apostólica. À sua comunidade é dedicado um setor da catedral.

Baixo relevo restaurado à mão

Baixo relevo restaurado à mão

Um teto reparado, uma luz que não morre

 

Percorrendo os quase 130 metros de comprimento da catedral, pode-se esperar que os sons de antes e os que acompanharão a chegada do Papa sejam muito diferentes: silêncio “grávido” agora e então.

Será uma contemplação que acontecerá ao pôr do sol, quando a catedral se encherá de uma luz capaz de tornar agradáveis até mesmo as gárgulas colocadas em seu topo.

O teto de Notre-Dame foi reparado. Os espaços escuros, esses permanecem. Mas, assim como eles, também permanece a lua.

Velas com o logotipo e o lema da Viagem Apostólica

Velas com o logotipo e o lema da Viagem Apostólica   (@VaticanNews)

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