A Europa e o desafio de permanecer humanos

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Andrea Tornielli

Ele havia escrito isso na Magnifica humanitas, sua primeira encíclica, um texto que continua sendo discutido e comentado internacionalmente: temos o “dever urgente” de permanecer humanos. Diante da tecnologia que se transforma em tecnocracia, diante dos ataques contra a vida e a dignidade do homem, diante da desumanidade da guerra e da tentativa de fazê-la parecer “normal” e “inevitável” para justificar o desperdício de enormes quantias de dinheiro na louca corrida ao rearmamento, o apelo do Papa Leão XIV para que continuemos sendo humanos é realmente uma urgência que não pode ser adiada.

O inerme Sucessor de Pedro, que prega Cristo e sua paz “desarmada e desarmante”, não se move segundo a lógica do poder que hoje parece tão vitoriosa, e não tem outro interesse senão o de fazer ressoar a voz dos pobres, dos sofredores, daqueles que têm sede de justiça, daqueles que anseiam por ver reconhecida a dignidade da vida, dos artífices da paz.

O convite a permanecer humanos é particularmente significativo também para a França, outrora chamada de “filha primogênita da Igreja”, o país que se tornou a pátria do Iluminismo e da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Uma nação em que as raízes cristãs são atestadas pelo esplendor da arte e das catedrais construídas ao longo dos séculos, e continuam vivas graças à presença de uma comunidade católica ativa e dinâmica.

O Bispo de Roma parte, portanto, para sua quinta viagem internacional para visitar Paris, Lourdes e Metz, no coração da velha Europa. Uma peregrinação eminentemente pastoral, que tem como objetivo confirmar na fé as comunidades francesas e, ao mesmo tempo, transmitir uma mensagem de paz e unidade capaz de ir além do recinto dos cristãos e dos crentes, para falar a todos, a partir do reconhecimento do que nos une como seres humanos.

Leão não chega à Ville lumière para condenar ninguém, nem para ingressar de cabeça no debate político francês, que está polarizado como em qualquer outro país da Europa. Ele vem como Pastor para achar um povo, sua história e sua cultura. Vem para encorajar aqueles que não se rendem à desumanidade. Vem trazendo apenas a Palavra do Evangelho. Mas a Palavra evangélica não está destinada a ficar suspensa no ar, relegada apenas ao âmbito das ideias ou das mensagens banais. É, ao contrário, uma Palavra que penetra na carne viva da história, enfrentando as feridas do nosso tempo e lançando uma luz de verdade para dissipar a névoa da mentira. É uma Palavra que nos convida a nos deixarmos ferir pelo sofrimento daqueles que morrem sob as bombas de guerras consideradas “inevitáveis”, que talvez pudessem ser detidas se prevalecessem a criatividade diplomática e um compromisso sério com as negociações, em vez de ceder aos interesses inconfessáveis dos grandes mercadores de armas. É uma palavra que nos pede para assumirmos o fardo do sofrimento daqueles que estão gravemente doentes e precisariam ser amados e acompanhados, em vez de serem deixados sozinhos, à mercê do desejo desesperado de pôr fim à própria vida. É uma palavra que nos coloca diante da responsabilidade de não desviarmos o olhar diante dos rostos daqueles que chegam ao Velho Continente após atravessarem o Mediterrâneo em busca de um porvir.

Desta terra da França, tão orgulhosa de suas raízes antigas, de sua história e de seu papel no mundo, o Papa Leão se dirigirá a toda a Europa. Uma Europa que corre o risco de perder sua identidade, caindo no abismo das ideologias belicistas e tecnocráticas, e que, ao invés, é chamada a redescobrir as razões profundas de sua unidade, a urgência da paz e a necessidade de proteger a “magnifica humanitas” de cada pessoa em todas as fases de sua existência.

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