África do Sul: Marchas contra migrantes levam Igrejas a adaptar a sua missão pastoral

0

À medida que continuam, em várias zonas da África do Sul, as manifestações contra migrantes em situação documental irregular, algumas paróquias católicas que acolhem grandes comunidades migrantes enfrentam um profundo impacto pastoral, refletido em bancos cada vez mais vazios, na suspensão de programas de apoio e no aumento dos pedidos de assistência humanitária.

Por Sheila Pires, em Joanesburgo

Há anos que a Catedral de Cristo Rei, no centro de Joanesburgo, é um lar espiritual para migrantes e refugiados provenientes de vários países africanos. Hoje, porém, o medo substituiu o sentimento de acolhimento que durante tanto tempo caracterizou esta comunidade, à medida que as marchas semanais exigindo a saída dos migrantes indocumentados da África do Sul levaram muitas famílias a esconder-se, a abandonar as suas casas ou a optar pelo repatriamento voluntário.

“A maioria das pessoas que servimos aqui — provavelmente entre 65 e 70 por cento — são migrantes”, afirma o padre Lawrence Ndlovu, administrador da catedral.

Segundo o sacerdote, o sistema migratório sul-africano oferece oportunidades muito limitadas para que muitos migrantes possam regularizar a sua situação. Embora a legislação privilegie profissionais com qualificações altamente especializadas ou competências escassas, muitos migrantes com competências práticas ou profissionais encontram enormes dificuldades para obter documentação legal, apesar de procurarem emprego de forma legítima.

As consequências já são visíveis no interior da catedral.

“Quando olhamos para os bancos da igreja, percebemos que um número significativo das pessoas que acompanhávamos já não está aqui”, explica o padre Ndlovu. “Outras continuam no país, mas têm demasiado medo para frequentar qualquer espaço público.”



“… um número significativo das pessoas que acompanhávamos já não está aqui”   (Sheila Pires, Joanesburgo (África do Sul))

Conhecida em Joanesburgo como uma paróquia que acompanha migrantes, a própria catedral tornou-se particularmente vulnerável durante as manifestações. Aquando da grande marcha anti-migrantes de 30 de junho, os responsáveis paroquiais decidiram suspender várias atividades pastorais para garantir a segurança dos funcionários, voluntários e das pessoas que ali procuravam apoio.

Entre os serviços temporariamente interrompidos estiveram a cozinha social da catedral, que habitualmente distribui cerca de 200 refeições por dia, as aulas de inglês destinadas a migrantes e refugiados, bem como diversos serviços de acompanhamento pastoral.

“Tivemos de interromper essas atividades porque era necessário proteger tanto os nossos colaboradores como as pessoas que servimos”, afirma o padre Ndlovu.

Os efeitos vão muito além da vida paroquial. Muitas famílias migrantes abandonaram as suas casas e aguardam agora junto das respetivas embaixadas, na esperança de regressarem aos seus países de origem. Comunidades que outrora enchiam a catedral — entre elas numerosos malawianos, zimbabueanos, nigerianos e congoleses — diminuíram significativamente.

“Há muito medo”, afirma o sacerdote. “As pessoas não sabem para onde esta situação poderá evoluir. Ninguém quer viver num ambiente hostil.”

O padre Ndlovu recorda que muitas destas famílias construíram a sua vida na África do Sul, com filhos a frequentar escolas locais e comunidades estabelecidas ao longo de vários anos. “Dizer simplesmente às pessoas para regressarem ao seu país não é assim tão fácil”, sublinha. “Têm famílias, educação e meios de subsistência que não podem ser desfeitos de um dia para o outro.”

Reconhecendo que muitos sul-africanos têm preocupações legítimas relativamente à gestão da imigração, o sacerdote considera, contudo, que a realidade é muito mais complexa do que frequentemente é apresentada no debate público. Refere os atrasos administrativos, bem como os casos de corrupção e pedidos de suborno enfrentados por migrantes que procuram renovar vistos ou regularizar a sua situação.

“A realidade é muito mais complexa do que simplesmente dizer que as pessoas devem regressar aos seus países”, afirma.

Para a Igreja Católica, a resposta continua a assentar no acompanhamento pastoral.

A Arquidiocese de Joanesburgo começou já a refletir sobre novas formas de apoiar as comunidades afetadas. Para além da oração e do acompanhamento pastoral, as paróquias estão a ser incentivadas a prestar ajuda concreta às famílias que perderam as suas casas ou permanecem junto das embaixadas à espera do repatriamento.

“Pediram alimentos, cobertores, roupa e outros bens essenciais para enfrentar este inverno”, explica o padre Ndlovu. “Estamos também a estudar de que forma as paróquias poderão contribuir para apoiar aqueles que optaram pelo repatriamento voluntário.”

Padre Lawrence Ndlovu, Administrador da Catedral Cristo Rei, em Joanesburgo, durante uma celebração

Padre Lawrence Ndlovu, Administrador da Catedral Cristo Rei, em Joanesburgo, durante uma celebração   (Sheila Pires, Joanesburgo (África do Sul))

Refletindo sobre a situação dos migrantes e refugiados, o sacerdote recorda uma verdade frequentemente repetida pela Igreja.

“Ninguém abandona a sua terra porque lá tudo corre bem”, afirma. “As pessoas partem porque acreditam que podem achar um porvir melhor ou porque fogem para salvar a própria vida. Como Igreja, temos o dever de as acompanhar.”

Fonte

Escreva abaixo seu comentário.

Por favor escreva um comentário
Por favor insira o seu nome aqui