IDEASS: do Vilarejo para o mundo, o início em Palmares do Sul

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Trazemos os detalhes de uma entrevista conduzida pelo jornalista Silvonei José nos estúdios da Rádio Vaticano – Vatican News, ao gaúcho Fábio Rosa. Fundador do IDEAAS (Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas e da Auto-Sustentabilidade), uma organização não governamental sem fins lucrativos que está prestes a completar 30 anos, Fábio compartilhou a trajetória de uma verdadeira revolução silenciosa: a universalização do acesso à energia elétrica no Brasil.

Vatican News

A conversa destacou o impacto do trabalho comunitário e a metamorfose social promovida pela eletrificação de áreas remotas, cujo modelo pioneiro nascido em solo brasileiro antecipou em mais de uma década as metas globais da Organização das Nações Unidas (ONU).

Do Vilarejo para o Mundo: O Início em Palmares do Sul

A caminhada que transformou o panorama energético do país começou bem antes da fundação formal do instituto, em 1984. Naquela época, o cenário da exclusão elétrica no Brasil era alarmante:

“Essa era uma questão que chegava a 45% da população brasileira. Nós éramos em torno de 110 milhões, e 45 milhões dos brasileiros não acessavam energia”, relembrou Fábio.

Trabalhando como secretário de Agricultura em Palmares do Sul, no Rio Grande do Sul, ele debruçou-se sobre o desafio de levar eletricidade para os produtores locais. O que era para ser a solução de um problema estritamente municipal acabou por revelar-se um modelo aplicável em escala global.

Seis anos após o início do projeto, o município estava 100% eletrificado. Fábio Rosa provou que a energia, mais do que acender lâmpadas, funciona como um vetor de desenvolvimento humano e econômico, capaz de arrastar comunidades inteiras do século XIX diretamente para o século XXI.

O “segredo” do modelo

O sucesso do projeto atraiu a atenção do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em 1985. O banco constatou que a metodologia aplicada no Sul reduzia drasticamente os custos de instalação:

Custo tradicional médio da época: Cerca de U$ 8.000 por propriedade rural.

Custo do modelo IDEAAS: Cerca de U$ 400 com o mesmo resultado.

O segredo dessa economia substancial repousava em dois pilares:

Adequação técnica (Engenharia): Em vez de replicar as tradicionais redes trifásicas com grandes transformadores de 150 kVA para famílias que consumiam apenas 1 kVA, o projeto redesenhou a infraestrutura de forma compatível com a realidade do campo.

Organização comunitária: A própria população local participava ativamente das obras. Atividades simples, como escavar os buracos para a colocação dos postes, eram feitas em regime de mutirão pelos moradores, eliminando custos logísticos desnecessários.

Pioneirismo Brasileiro na Agenda Internacional

O impacto desse modelo foi tão profundo que acabou respaldando a criação da Lei 14.300 no ano de 2002, que reconheceu o acesso universal à energia como um direito de todos os cidadãos no Brasil. Com isso, o país tornou-se a primeira nação da era moderna a estabelecer legalmente e buscar a universalização energética.

Esse entendimento cultural e político antecedeu as próprias Nações Unidas. A ONU só viria a consolidar uma visão equivalente em 2012, com o lançamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Hoje, a causa defendida pelo IDEAS há décadas corresponde exatamente ao ODS número 7: Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e acessível à energia limpa para todos.



Fábio com o cantor brasileiro Zé Galia.

O cenário atual e o desafio na Amazônia

Embora o avanço global tenha sido significativo, a exclusão energética ainda afeta uma parcela massiva da população mundial. Fábio Rosa corrigiu a estimativa antiga de que metade do planeta estaria às escuras, atualizando os dados:

Atualmente, calcula-se que entre 1,2 bilhão e 1,5 bilhão de pessoas no mundo ainda não têm acesso à eletricidade (excluindo os dados oficiais da China, que não são divulgados).

Desse total, cerca de 600 milhões concentram-se na região da África Subsaariana.

A Índia responde por cerca de 200 milhões de indivíduos sem energia.

No Brasil, o índice de atendimento já atinge 98% da população. O grande gargalo restante, onde o IDEAS ainda concentra esforços, localiza-se nas regiões mais isoladas e remotas da Amazônia, nas calhas dos grandes rios (como Tapajós e Amazonas), no arquipélago do Bailique (na Guiana Francesa), na região do Arapiuns e junto às fronteiras com a Venezuela e a Colômbia, englobando muitas comunidades indígenas.

A presença da Igreja onde o Estado não chega

Durante a entrevista, Fábio Rosa trouxe um depoimento emocionado sobre a dinâmica de atuação nessas fronteiras geográficas e humanas. Ele destacou que, nas localidades mais isoladas da Amazônia ou mesmo nos primórdios das colônias italianas, alemãs e polonesas no Sul do país, a estrutura do Estado frequentemente demorava a chegar.

“Em geral, antes do Estado, chegava uma ação comunitária da Igreja. Você encontra um centro comunitário, um serviço da Igreja nesses locais. E é o ponto de chegada onde se procura o apoio para poder chamar as pessoas e começar a desenvolver as coisas”, relatou.

De formação jesuíta, Fábio reforçou que essa capilaridade histórica da Igreja cria uma rede de acolhimento e confiança fundamental para o sucesso de projetos humanitários, unida por um profundo sentimento de fraternidade e fé que, em última análise, conecta e irmana a todos.

Eis a conversa integral:

IDEAAS

Desde 1997, o IDEAAS atua na área de acesso à energia e de usos produtivos da energia para promoção do desenvolvimento sustentável.
Com projetos por todo o Brasil, regiões da América Latina e da África, a área de atuação do IDEAAS envolve concepção, desenvolvimento e implementação de projetos em:

– Sistemas de energia solar fotovoltaica
– Modelos de negócio e de gestão para geração descentralizada
– Sistemas de eletrificação rural de baixo custo
– Uso de energias alternativas para o desenvolvimento rural e geração de renda
– Tecnologias sociais de acesso à energia
– Promoção da saúde, educação e cultura por meio do acesso à energia

Conheça os projetos em andamento e já realizados.

Fonte

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