Metz, as raízes da paz europeia na “cidade das três fronteiras”

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“A diocese de Metz, com sua história, regime concordatário, experiência transfronteiriça e memória de Robert Schuman, pode dar testemunho de uma Igreja chamada a assumir a sua missão na cidade, não para impor uma visão confessional, mas para recordar que a fé cristã pode inspirar uma cultura de encontro, responsabilidade, paz e esperança”, diz o Pe. Jourdain. Na cidade, terra onde as feridas da guerra ainda são visíveis nas pedras da cidade e nas famílias, o Papa recorrerá às fontes da paz.

Vatican News com Agência Fides

À luz deste fim de verão, a pedra de Jaumont, nas fachadas do centro da cidade, revela profundas cicatrizes esculpidas na rocha em alguns pontos. Nestas fachadas históricas, as cavidades, abertas por estilhaços, em 1944, testemunham a violência dos combates da II Guerra Mundial, que a cidade de três fronteiras comprovou. Ali, o Papa Leão XIV concluirá sua Viagem apostólica à França, na próxima segunda-feira, 28 de setembro de 2026, após sua visita a Paris e Lourdes. Segundo o programa, antes de percorrer o centro da cidade em papamóvel e celebrar a Missa na Catedral de Saint-Étienne, estão previstos dois encontros: um inter-religioso e outro intitulado “raízes da Europa para a paz e a unidade”.

“Estamos perdendo a paixão pela Europa, porque esquecemos o porquê a criamos”: eis o testemunho de um ex-embaixador, que participou da construção da Europa. Alguém poderia se questionar por que o Bispo de Roma se deteve em Mosela, durante sua viagem? A resposta vem da essência da cidade e da história de seus habitantes.

Em 28 de setembro, ao chegar ao aeroporto de Metz-Nancy-Lorraine, Leão XIV irá diretamente ao Centro de Conferências Robert-Schuman, onde participará de um encontro inter-religioso e, em seguida, de um evento dedicado às raízes da Europa. Após pronunciar dois discursos, o Papa irá ao centro da cidade. Na parte da tarde, se dirigirá para a Catedral de Sant-Étienne, passando de papamóvel pela Avenida Foch, a Avenida Robert-Schuman, a Praça da República e as ruas do centro histórico.



Esta fotografia mostra uma vista da Catedral de Saint-Étienne em Metz, no leste da França, em 19 de agosto de 2026. O Papa Leão XIV celebrará uma missa na Catedral de Saint-Étienne em 28 de setembro de 2026. (Foto de Jean-Christophe Verhaegen / AFP)   (AFP or licensors)

A memória das fronteiras

 

Mosela não se encontra apenas perto das fronteiras, mas esteve, por muito tempo, em contínua sintonia com suas mudanças. Anexada ao Império Alemão, após a guerra de 1870, a região voltou, em 1918, a fazer parte da França, antes de ser anexada, novamente, ao regime nazista, durante a II Guerra Mundial, até à sua libertação, em fins de 1944, com a sua reintegração definitiva à França, em 1945. O Padre Cédric Burgun, decano da Faculdade de Direito Canônico do Instituto Católico de Paris, e natural da cidade de Metz, explica à Agência Fides: “Mosela, como a Alsácia, ainda carrega viva a memória dos conflitos, anexações e lacerações, que marcaram a Europa contemporânea. Esta memória permanece viva, sobretudo, nas famílias”. E o sacerdote recorda ainda: “A construção europeia não nasceu de uma abstração tecnocrática, mas do desejo de reconciliar povos, que, há muito tempo, estavam contrapostos”.

Por sua vez, o Padre Stéphane Jourdain, pároco da comunidade de Saint-Privat, em Metz-Sul, narra histórias de muitos habitantes: “Alguns tinham avós partidários; outros sofreram por trabalhos forçados; alguns foram expulsos para o sul da França, mas depois retornaram. Em muitas famílias, as gerações mais velhas passaram por mudanças impostas pela língua, nacionalidade ou administração. A memória local também preserva vestígios de chegadas subsequentes de italianos, poloneses, argelinos e, mais recentemente, de outras proveniências”.

Esta história abalou profundamente a Igreja local. Durante a anexação alemã, sob o governo do Bispo Willibrord Benzler, foi promovido um Congresso Eucarístico, em francês e alemão, em vista da dupla identidade cultural do território. Após a I Guerra Mundial, o Bispo alemão foi expulso pelas autoridades francesas, como recorda o Padre Jourdain: “A vida da Igreja local foi devastada pelas convulsões da história político-nacional”.

Esta fotografia mostra um crucifixo com um pano vermelho simbolizando o sangue de Jesus, colocado ao lado do altar na Catedral de Saint-Étienne, antes da missa da Via Sacra, como parte das celebrações da Páscoa na Sexta-feira Santa, em Metz, nordeste da França, em 18 de abril de 2025. As 14 Estações da Cruz recontam os últimos passos dados por Jesus Cristo antes de sua crucificação, enquanto as pessoas celebram a Sexta-feira Santa, em Metz, nordeste da França, em 18 de abril de 2025. (Foto de Jean-Christophe Verhaegen / AFP)

Esta fotografia mostra um crucifixo com um pano vermelho simbolizando o sangue de Jesus, colocado ao lado do altar na Catedral de Saint-Étienne, antes da missa da Via Sacra, como parte das celebrações da Páscoa na Sexta-feira Santa, em Metz, nordeste da França, em 18 de abril de 2025. As 14 Estações da Cruz recontam os últimos passos dados por Jesus Cristo antes de sua crucificação, enquanto as pessoas celebram a Sexta-feira Santa, em Metz, nordeste da França, em 18 de abril de 2025. (Foto de Jean-Christophe Verhaegen / AFP)   (AFP or licensors)

Robert Schuman, filho da região de Mosela

 

A etapa do Papa em Metz, naturalmente, colocará em primeiro plano a figura de Robert Schuman. Nascido em 1886, na então anexada Mosela, era filho de pai, da região de Lorena, que se tornou alemão após a anexação alemã, e de mãe luxemburguesa. Este homem, considerado um dos pais da Europa, representava a história daquelas fronteiras mutáveis ​​e identidades entrelaçadas, como explica o Padre Cédric Burgun, promotor da Causa de canonização de Robert Schuman e presidente do Institut Saint-Benoît, associação diocesana de Metz, encarregada de promover a sua Causa: “Seu trajeto está intimamente ligado ao território fronteiriço entre Luxemburgo, Trier, Alemanha e França. A sua experiência suscitou nele a consciência da necessidade de superar antagonismos nacionais e transformar um antigo inimigo em companheiro e, depois, irmão”.

Sua declaração de 9 de maio de 1950 propunha colocar em comum a produção de carvão e aço da França e Alemanha. Isso, segundo a fórmula agora histórica, visava tornar uma nova guerra “não apenas impensável, mas materialmente impossível”.

Sua intuição política era concreta: organizar a interdependência, onde as rivalidades industriais haviam contribuído para um conflito. A sua visão era de profundo valor ética, fundada na possibilidade de reconciliação entre os povos feridos.

Para o Padre Burgun, a obra de Schuman continua sendo “uma verdadeira escola de compromisso para os cristãos”. Ele afirmava que um compromisso inspirado pela fé não levava “a um retiro confessional e tampouco a uma posição exclusivamente defensiva, mas ao serviço do bem comum, da paz e da reconciliação”. Mas, o Padre Burgun acrescenta ainda: “Seria um erro imaginar que Robert Schuman exerceu seu compromisso político em uma sociedade unanimemente cristã favorável ao seu projeto. Quando ele foi Primeiro-Ministro e, depois, Ministro, a França passava por fortes oposições ideológicas e um real anticlericalismo. Vincent Auriol, Presidente da República, representava uma tradição republicana bem distante do catolicismo. O projeto europeu de Schuman não foi imediatamente acolhido com entusiasmo, nem dentro de seu próprio partido político, o Movimento Republicano Popular. Logo, seu exemplo demonstrava a possibilidade de manter um compromisso cristão em uma sociedade pluralista e, às vezes, contraditória”.

Por outro lado, a sua vida pública também estava indissoluvelmente ligada a uma intensa vida interior. Robert Schuman encontrou a fonte de sua ação na oração, silêncio e Eucaristia.

Assim, descreve o Padre Cédric Burgun: “Robert Schuman deixava sua lar em Scy-Chazelles, nas colinas de Metz, para ir, regularmente, à capela dos Servos do Coração de Jesus, onde passava longos períodos em oração. Os moradores diziam que o conheciam melhor ‘de costas e de joelhos’, por causa da sua discreta e constante presença em oração”. Sua Causa de canonização, apoiada pelas orações dos habitantes locais, recorda que a sua ação política encontrou sua origem e fonte em uma intensa vida interior. Robert Schuman foi declarado venerável pelo Papa Francisco, em 2019, mas ainda é preciso o reconhecimento de um milagre para ser beatificado.

Visitantes passam por uma faixa com os dizeres "Bem-vindo ao Papa Leão XIV" dentro da Catedral de Saint-Étienne em Metz, no leste da França, em 19 de agosto de 2026. O Papa Leão XIV celebrará uma missa na Catedral de Saint-Étienne em 28 de setembro de 2026. (Foto de Jean-Christophe Verhaegen / AFP)

Visitantes passam por uma faixa com os dizeres “Bem-vindo ao Papa Leão XIV” dentro da Catedral de Saint-Étienne em Metz, no leste da França, em 19 de agosto de 2026. O Papa Leão XIV celebrará uma missa na Catedral de Saint-Étienne em 28 de setembro de 2026. (Foto de Jean-Christophe Verhaegen / AFP)   (AFP or licensors)

Uma Igreja singular

 

A diocese de Metz apresenta outra característica particular: manter o regime da Concordata da Alsácia-Mosela, como afirma o Padre Cédric Burgun: “Isso confere à Igreja um papel institucional específico, em um cenário francês caracterizado por uma concepção exigente de laicidade, por vezes, complexa”. O regime diz respeito aos diversos cultos religiosos reconhecidos e mantém, na vida cotidiana, uma forma de colóquio entre as autoridades civis e os líderes religiosos.

Nas paróquias, o prefeito ou seu representante participa, por direito, do conselho paroquial, encarregado, de modo particular, dos assuntos econômicos e patrimoniais, como explica ainda o canonista: “Esta situação, às vezes, pode causar dificuldades, segundo as sensibilidades individuais ou políticas, mas também exige manter as relações regulares entre os líderes civis e religiosos. Isso permite uma presença mais serena e consciente das religiões na esfera pública”.

Esta particularidade também tem uma dimensão pastoral: o Padre Stéphane Jourdain fala de cerca de 150 leigos remunerados comprometidos com as missões eclesiais, quase como fazem os sacerdotes da diocese. Este recurso humano permite o desenvolvimento de inúmeras iniciativas, mas também incentiva o desenvolvimento do compromisso voluntário e a partilha de responsabilidades.

Uma esperança a ser transmitida

 

Como em muitas outras dioceses, hoje, a Igreja de Metz passa por um período de transição. Algumas áreas rurais mantêm uma forte tradição cristã e uma participação estável nas práticas da vida eclesial. Ao mesmo tempo, muitos adultos, hoje, batem à porta da Igreja para pedir o batismo ou aprofundar a sua fé, como o Bispo de Metz gosta de dizer, segundo o Padre Jourdain:  “A Igreja está se modernizando”. Mas, os percursos são diferentes: jovens adultos, que mantiveram uma ligação distante com a fé; pais, que acompanham seus filhos; pessoas que descobrem o valor da oração, o Evangelho ou a vida sacramental na idade adulta: “Muitos vão em busca de sentido, direção ou novo ímpeto”.

Tal vitalidade não faz diminuir as fragilidades, causa, sobretudo, da falta de ordenações sacerdotais por vários anos. No entanto, alimenta uma esperança local, que dá valor à Visita papal, como afirma o Padre Jourdain: “A partir desta memória, a Visita do Papa pode assumir seu pleno significado: recordar os profundos motivos da construção da Europa, renovar o apelo à paz e reconhecer, nas histórias de migração, sofrimento e mistura de povos, uma fonte potencial de fraternidade”.

Na cidade de Metz, terra onde as feridas da guerra ainda são visíveis nas pedras da cidade e nas famílias, o Papa recorrerá às as fontes da paz europeia, desejada como decisão histórica, política e espiritual, como diz, por fim, o Padre Cédric Burgun: “A diocese de Metz, com sua história, regime concordatário, experiência transfronteiriça e memória de Robert Schuman, pode, desta forma, dar testemunho de uma Igreja chamada a assumir a sua missão na cidade, não para impor uma visão confessional, mas para recordar que a fé cristã pode inspirar uma cultura de encontro, responsabilidade, paz e esperança”.

 

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