É a última das crónicas sobre a ‘Magnifica Humanitas’ de Leão XIV. Segundo o Papa, ‘o papel que a Inteligência Artificial desempenha na guerra traz enormes riscos: ‘torna mais rápida e impessoal a decisão sobre a vida e a morte. e apresenta o recurso à força como uma opção imediata e exequível’ (nº182). Há dados evidentes: ‘a revolução digital está a modificar a gramática dos conflitos (…). A fronteira entre a proteção e a agressão está a dissipar-se’ (nº183).
P. Tony Neves – Roma
Paulo VI introduziu a expressão ‘civilização do amor’ durante a Guerra fria, num tempo de corrida ao armamento e fortes desequilíbrios económicos. Trata-se de um ‘projeto exigente’ que o Papa Francisco explicou melhor na Fratelli Tutti: ’só este amor social, capaz de se tornar cultura e norma, pode gerar uma ordem internacional estável, transformando a convivência de simples coexistência armada numa comunidade de destino’ (nº186).
Nunca mais a guerra…
A guerra estás a normalizar-se, apesar do grito de Paulo VI nas ONU em 1965: ‘Nunca mais a guerra, nunca mais a guerra!’. Hoje, ‘a guerra é um instrumento de política internacional, enquanto precisamente se degradam aqueles critérios éticos que tinham limitado o seu uso’ (nº190). A guerra é hoje ‘preparada através de narrativas simplistas, lógicas de amigo-inimigo, desinformação e medo’ (nº192).
O Papa Leão é claro na afirmação da superação da teoria da ‘guerra justa’, que deve ser substituída pelo colóquio, a diplomacia e o perdão. Mas, quando a indústria bélica é setor chave na economia de alguns países, tudo se complica: ‘não podemos ignorar os enormes interesses económicos que estão por trás da guerra’ (nº193). Há que investir na prevenção de conflitos, pois é mais fácil iniciar uma guerra que termina-la. A situação internacional complicou-se com ao surgir de novos protagonistas armados – grupos jihadistas, milícias privadas, redes criminosas: ‘o objetivo já não é uma vitória definitiva, mas a perpetuação do conflito como fonte de poder e rendimento’ (nº196). Nesta era da IA, há que evitar a corrida ao armamento. É relevante identificar e verificar a cadeia de responsabilidades: ’quem projeta, quem treina, quem autoriza e quem utiliza deve poder prestar contas das suas escolhas’ (nº199).
Paz, fruto da Justiça
A construção da paz passou para segundo plano: ‘enfraquecem-se também as conquistas do direito humanitário: o princípio da proporcionalidade na resposta às agressões; a garantia do acesso à água, aos alimentos e aos bens essenciais; o respeito pela vida dos civis e das crianças são tratados como reminiscências ingénuas do passado’ (nº203).
A paz é fruto da justiça e da caridade, contrariando práticas e objetivos de ‘extremismos religiosos e fanatismos identitários’ (nº206), que marcam uma ‘época de notável cegueira espiritual e cultural’.
Na construção da civilização do amor ninguém está isento de responsabilidade, pois todos devem ‘zelar pela lógica da paz (com a verdade, a sobriedade, a proximidade, o cuidado’. O Papa Leão XIV propõe ‘cinco pistas de responsabilidades quotidianas e públicas: desarmar as palavras, construir a paz na justiça, assumir o olhar das vítimas, cultivar um saudável realismo, revitalizar o colóquio e o multilateralismo’ (nº213). Como defendia o Papa Francisco, ‘quem, para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra, usa o nome de Deus, trai a sua imagem: fazer guerra em nome da religião significa, na realidade, ferir a própria religião’ (nº223).
Em jeito de conclusão
Na Conclusão, o Papa diz que ‘quem salva o homem é o amor divino que desce ao ponto mais vulnerável da sua história e a regenera profundamente’ (nº232). Assim, ‘a Eucaristia abre-nos à justiça e à partilha, com uma atenção preferencial para com quem carrega o fardo da pobreza e da marginalização’ (nº235). É urgente a formação para viver no mundo digital, bem como o cuidado das relações e o amor pela justiça e pela paz.
O exemplo mais completo é-nos fornecido por Maria e narrado no Magnificat: ‘com a mesma fé de Maria, tornemo-nos tecelões de esperança no nosso mundo, partilhando o que somos e o que temos’ (nº245).
Tony Neves CSSp, em Roma

