Volodymyr, o Grande, e o Batismo da Rus’ de Kiev

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Em 15 de julho, as igrejas na Ucrânia celebram opPríncipe de Kyiv, figura central na história do país. A mesma data também comemora o Batismo da Rus’ de Kyiv em 988, um evento que marcou a conversão do Estado medieval ao cristianismo e influenciou profundamente sua identidade religiosa, cultural e política. Para Dmytro Hordienko, medievalista ucraniano, tratou-se de uma escolha para o desenvolvimento da Rus’ nos séculos seguintes.

Svitlana Dukhovych – Cidade do Vaticano

A decisão do príncipe Volodymyr, o Grande, de abandonar o paganismo e abraçar o cristianismo de estilo bizantino representa um dos momentos decisivos na história da Rus’ de Kiev. É um ponto de virada que coloca em questão o contexto político, religioso e diplomático de uma era em que, para os governantes, religião, política e Estado não eram entidades distintas, mas partes de um único sistema. O batismo da Rus’ — segundo o medievalista ucraniano Dmytro Hordienko — representou uma escolha civilizacional fundamental, que inseriu a Rus’ de Kiev no espaço cultural europeu e cristão, guiando seu desenvolvimento nos séculos seguintes.

Porque o paganismo não servia mais

 

Para Hordienko, a decisão do Príncipe Volodymyr de batizar a Rus’ de Kiev não pode ser atribuída a uma única motivação. “A principal razão é que Volodymyr se viu diante da necessidade de escolher uma religião monoteísta”, explica Hordienko, referindo-se a uma tese historiográfica bem estabelecida, formulada pelo historiador e político ucraniano Mykhailo Hrushevsky (1866-1934). Foi, de fato, durante o reinado de Volodymyr que um Estado centralizado tomou forma, com sua capital em Kiev. Os antigos senhorios locais foram gradualmente substituídos por uma única linhagem: “Na Idade Média – enfatiza Hordienko – uma dinastia era equivalente a um Estado”. Para consolidar essa nova realidade política, contudo, uma base religiosa comum também era necessária. Inicialmente, Volodymyr tentou reformar o paganismo. Crônicas relatam que ele estabeleceu um panteão comum para todo o reino em Kiev, buscando criar um culto unificado. “Foi uma espécie de reforma religiosa – explica Dmytro -,uma tentativa de dar ao paganismo uma função unificadora”. No entanto, esse projeto mostrou-se insuficiente diante das exigências da época.

A escolha da fé: um caso único na Europa medieval

 

As principais fontes historiográficas — especialmente a Crônica dos Anos Passados ​​e a Memória e Elogio do Príncipe Volodymyr, de Jakiv Mnich — mostram como, no final do século X, o príncipe foi forçado a escolher entre as grandes religiões monoteístas. “Um Estado centralizado não podia mais sobreviver no espaço político da época permanecendo pagão”, afirma Hordienko. Ao contrário de outros governantes europeus da época, Volodymyr enfrentou uma gama muito maior de opções. Enquanto Mieszko I da Polônia teve que decidir em qual centro do cristianismo latino se apoiar e Boris I da Bulgária negociou entre Roma e Constantinopla, o príncipe da Rus’ também considerou o islamismo e o judaísmo.

“Nenhum outro governante europeu da época enfrentou um horizonte religioso tão amplo.” Segundo o acadêmico ucraniano, a missão da Bulgária do Volga, que as crônicas colocam em primeiro lugar, merece atenção especial. Após uma difícil campanha militar contra aquele reino, emissários muçulmanos propuseram que Volodymyr se convertesse ao Islã. De acordo com Hordienko, o Islã de fato representava uma opção muito concreta. A Bulgária do Volga pertencia, na verdade, à esfera comercial de Khwarezm e do Califado Islâmico, com os quais a Rus’ mantinha intensas relações econômicas. “A principal artéria comercial da Rus’ corria ao longo do Volga até o Mar Cáspio e Bagdá”, afirma Dmytro Hordienko, citando os estudos do historiador britânico Simon Franklin. Por essa razão, conclui ele, “o Islã não era uma possibilidade puramente teórica, mas uma opção real que Volodymyr considerou seriamente, mesmo que não haja evidências confiáveis ​​de que o príncipe tenha alguma vez professado essa crença.”

As missões de Roma

 

Após a missão muçulmana, representantes do cristianismo ocidental também chegaram à corte de Volodymyr, conforme relatado na Crônica dos Anos Passados: “vindos dos alemães, de Roma”. Este episódio, observa Dmytro, ainda levanta muitas questões. “Que os alemães estavam envolvidos é bastante claro: provavelmente se referem à missão ligada ao Arcebispado de Magdeburgo. É mais difícil entender a referência a Roma.”

Segundo o historiador, o mais interessante é que a resposta de Volodymyr a essa missão não contém nenhum argumento teológico. “Embora já existissem inúmeras disputas teológicas entre Constantinopla e Roma na época, a Crônica não faz referência ao purgatório, ao uso de pão ázimo ou a qualquer outra questão teológica que pudesse ter se tornado objeto de controvérsia. Este é um elemento muito significativo. Mostra que, para o autor da Crônica, Roma não era vista como algo estrangeiro ou hostil.” Hordienko também relaciona essa teoria à lenda do Apóstolo André, que, segundo a tradição russa, atravessou a Crimeia, chegando a Kiev e depois seguindo para Roma. “Se já existissem fortes sentimentos antilatinos, seria difícil imaginar uma tradição em que o Apóstolo André abençoa as colinas de Kiev a caminho de Roma.” O único argumento atribuído a Volodymyr em resposta à missão ocidental é a frase: “Nossos pais não a aceitaram.” Tradicionalmente, isso é interpretado como uma referência às dificuldades encontradas pela missão de Santo Adalberto de Magdeburgo na corte da Princesa Olga. No entanto, o historiador ucraniano alerta para a necessidade de cautela: “Na realidade, não sabemos o motivo exato das divergências entre os dois. O próprio Adalberto relata que os problemas começaram já durante a viagem para Kiev, quando sua missão foi atacada e roubada.”

Monumento a São Volodymyr, o Grande, em Kyiv

Monumento a São Volodymyr, o Grande, em Kyiv

A Khazaria e a atração do mundo islâmico

 

Segundo a Crônica, uma delegação judaica do mundo khazar chegou a Kiev posteriormente. Quando Volodymyr perguntou: “Onde fica a vossa terra?”, os embaixadores responderam que estava “sob o domínio dos cristãos”. O príncipe interpretou essa resposta como um sinal de castigo divino. De acordo com o historiador, no entanto, o significado mais profundo do episódio diz respeito ao modelo político da Khazária.

“O Canato Khazar era um Estado no qual três religiões monoteístas coexistiam: judaísmo, islamismo e cristianismo. Essa estrutura pode ter despertado o interesse de Volodymyr, pois permitiria a presença de diferentes comunidades religiosas dentro do mesmo Estado, sem necessariamente ter que impor uma única religião a toda a população.” Essa hipótese também levanta a questão das relações com o mundo islâmico.

A Khazaria, de fato, estava ligada às grandes rotas comerciais orientais, em direção ao Mar Cáspio e a Bagdá. Para a Rus’ de Kiev, essas conexões eram de importância estratégica. “O Islã não era apenas uma questão religiosa, mas também econômica. O mundo islâmico oferecia acesso aos mercados mais ricos da época, especialmente o de Bagdá.” Por essa razão, Dmytro Hordienko acredita que a possível escolha de Volodymyr pelo Islã não deve ser considerada um mero elemento literário na Crônica. “Na minha opinião”, explica ele, “o Islã era de fato uma alternativa concreta para Volodymyr e tinha uma chance real de prevalecer.”

Constantinopla, Ana e a nova identidade da Rus’ de Kiev

 

Segundo Hordienko, a escolha de Volodymyr pelo cristianismo bizantino não foi resultado de um simples debate teológico. A tradição da Crônica dos Anos Passados ​​narra a tentativa de um filósofo bizantino de convencer Volodymyr por meio da imagem do Juízo Final. “No final do primeiro milênio, a expectativa do fim do mundo era um elemento muito forte da sensibilidade religiosa”, explica o historiador ucraniano. “Um argumento baseado no Juízo Final deve ter tido um grande impacto.” A própria Crônica dos Anos Passados ​​é profundamente influenciada por uma perspectiva escatológica, ou seja, pela expectativa do fim dos tempos. Na história, o filósofo apresenta a Volodymyr um ícone que retrata a cena do Juízo Final. O príncipe, contudo, não reage como um convertido convicto e pergunta ao filósofo quem pode ingressar no céu e, sobretudo, qual foi o destino de seus ancestrais. A pregação do filósofo bizantino, porém, não é totalmente convincente, e Volodymyr responde que ainda deseja refletir.

Para o historiador ucraniano, esse detalhe é relevante porque mostra um Volodymyr diferente da imagem ideal do príncipe convertido. “O cronista cristão poderia tê-lo apresentado como alguém que ouve a Palavra de Deus, crê e escolhe a salvação. Em vez disso, ele nos conta que Volodymyr continua a refletir e não toma uma decisão imediata.” A decisão final vem após outra fase: o príncipe envia embaixadores a diferentes povos para observar suas práticas religiosas. A experiência que mais os impacta é a liturgia na Catedral de Santa Sofia, em Constantinopla. “É compreensível: naquela época, era o maior templo do mundo cristão. Mas o fator decisivo não foi apenas a liturgia. Foi a própria Constantinopla, a maior cidade do mundo na época.”

Segundo Hordienko, um papel decisivo na escolha de Volodymyr de se dedicar ao cristianismo de rito bizantino também foi desempenhado por sua relação com Constantinopla e pela possibilidade de estabelecer uma aliança com a dinastia imperial casando-se com a princesa Ana, irmã do imperador Basílio II. Quando o imperador solicitou ajuda militar da Rus’ para sufocar uma revolta interna, Volodymyr aproveitou a oportunidade para fortalecer sua posição internacional. “De acordo com a lógica política da época, o casamento com a dinastia imperial elevou consideravelmente seu prestígio. De um estado considerado periférico, a Rus’ tornou-se uma das principais potências da região.”

Kiev também adquiriu, assim, um novo status político e simbólico, sendo reconhecida como a capital da Rus’. “Na tradição europeia, as capitais eram associadas principalmente a Roma e Constantinopla. O fato de Kiev ter começado a ser considerada a capital representa uma mudança extraordinária.” Para o historiador, portanto, a escolha de Volodymyr levou à legitimidade da Rus’ de Kiev no mundo cristão da época e fortaleceu profundamente sua posição política.

O mosaico de São Volodymyr na Basílica de São Pedro

O mosaico de São Volodymyr na Basílica de São Pedro

O Batismo da Rus’ e o nascimento de uma nova civilização

 

Segundo Hordienko, a forma como a Crônica dos últimos anos relata o batismo de Kiev é significativa. Na verdade, ainda neste episódio verifica-se que o elemento decisivo da conversão esteve mais ligado à escolha feita pelo príncipe, do que ao verdadeiro envolvimento popular. “Ao narrar o batismo de Kiev, a Crônica não relata episódios ligados à pregação dos sacerdotes vindos de Korsun (Chersonesos Taurica). A mensagem implícita é, portanto, muito simples: se o príncipe aceitou esta religião, então ela também deve ser adequada para o seu povo”. Posteriormente, a cristianização da Rus’ continuou de forma gradual e complexa, marcada por dificuldades e resistências locais. Para Dmytro Hordienko, porém, a escolha de Volodymyr não pode ser interpretada separando a dimensão política da religiosa. “Para um soberano medieval, a política, a religião e o Estado não eram realidades distintas, mas formavam um sistema único. Se Deus fosse a favor do soberano, o Estado também seria forte.

O historiador sublinha ainda que Volodymyr manteve relações tanto com Roma como com Constantinopla, tentando preservar o máximo espaço de autonomia para a Rus’. Os contactos com o mundo latino são demonstrados, entre outras coisas, pela presença na corte de Kiev de figuras como o bispo e missionário Bruno de Querfurt e o bispo Reinbern, ambos ligados à tradição ocidental. Estes elementos demonstram como a preferência de Volodymyr por Constantinopla não significou uma exclusão completa das relações com Roma. “Não devemos imaginar que Volodymyr simplesmente seguiu uma decisão tomada por outros. Ele tentou usar as relações com Roma e Constantinopla de acordo com os interesses do seu próprio Estado.” No final, porém, o resultado mais relevante foi a entrada da Rus’ no mundo cristão. “Volodymyr fez uma escolha civilizacional a favor do cristianismo. – Graças a esta escolha, a Rus’ entrou no espaço cultural europeu”, declara Hordienko, acrescentando que o maior legado histórico do príncipe de Kiev consiste precisamente nisso. A adoção do Cristianismo trouxe consigo novas tradições culturais, a difusão da escrita, dos livros e da arte cristã. Em poucas décadas, Kyiv tornou-se um dos principais centros culturais da Europa.

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