A teóloga Sónia Monteiro assinala a importância de envolver “representantes do Estado” e “figuras de empresas multinacionais” na reflexão proposta pelo Papa na sua encíclica.
Rui Saraiva – Portugal
Na sua leitura sobre a encíclica “Magnifica Humanitas” de Leão XIV, a teóloga Sónia Monteiro aborda a especial preocupação do Santo Padre com a aplicação da inteligência artificial (IA) ao armamento.
Considera que “talvez se possa abrandar um modo desenfreado que há neste momento de corrida ao armamento tecnológico”. Para isso será necessário envolver “representantes do Estado” e “figuras de empresas multinacionais” na reflexão proposta pelo Papa Leão XIV.
Sónia Monteiro assinala que “é impossível falar de guerra justa” pois “com as armas tecnológicas, o armamento tecnológico, nós não conseguimos controlar ou calcular a proporção do dano”.
“Não vamos falar de guerra justa quando de repente, por causa de uma invasão, que é grave, destruímos por completo com armas tecnológicas toda uma nação”, afirma a teóloga.
É relevante que se insista em abrandar
“Acho que é possível criar uma consciência maior de que estamos diante de uma evolução tecnológica que não estamos preparados, que não sabemos muito bem onde nos conduz. E em relação à guerra isto é muito mais problemático, porque, por exemplo, na questão das guerras justas, e que essa foi com o Papa Francisco uma questão aberta, se o Papa Francisco subscrevia, pelos vistos não. Sabemos que é papel da Igreja falar de uma paz justa. Percebemos que há uma mudança de discurso em vez de uma guerra justa para uma paz justa e o que é que isso significa.
A questão das armas tecnológicas, porquê é que ela é relevante? Porque no contexto da guerra justa havia a questão da legítima defesa, mas também da proporcionalidade. Com as armas tecnológicas, o armamento tecnológico, nós não conseguimos controlar ou calcular a proporção do dano. E por isso à partida é impossível falar de guerra justa, porque um dos princípios fundamentais da própria teoria não está a ser cumprido. E essa cautela parece-me que é prudente e que é necessária. Não vamos falar de guerra justa quando de repente, por causa de uma invasão, que é grave, destruímos por completo com armas tecnológicas toda uma nação. Mesmo à luz do direito internacional, isto é problemático, não é?
E do ponto de vista da própria doutrina ou da teoria da guerra justa, é problemática. Parece-me relevante que se insista num abrandar. E se estamos conscientes que estamos a caminhar para um contexto em que não teremos capacidade de avaliar o impacto dos nossos atos violentos? Ou se só estaremos conscientes depois do dano ter sido feito?
Parece-me que é relevante colocar a questão e abrandar. Acima de tudo, não sei se será suficiente para mudar, mas se for suficiente para trazer, conquistar, de um ponto de vista de uma forma diplomática, estratégica, representantes do Estado, figuras de empresas multinacionais, para este discurso, para este movimento, talvez se possa abrandar um modo desenfreado que há neste momento de corrida ao armamento tecnológico.
E da mesma forma que a Laudato si criou movimentos e pontes, este é um assunto que nos diz respeito a todos: aos jovens que estão altamente interessados; Estados, a questão do controlo, da liberdade. São outros valores que estão em causa. É a questão da paz, é a questão da liberdade, do controlo, a questão do próprio trabalho. São questões transversais a qualquer sociedade. E parece-me um lugar, um tema, que diz respeito à condição humana, que diz respeito ao espaço social e que pode envolver todos, independentemente de serem crentes ou não crentes. Diz respeito à lar comum”, afirma a teóloga.
Repensar o que nos qualifica como humanos
Sónia Monteiro é professora auxiliar convidada na Universidade Católica Portuguesa e tem doutoramento em Teologia Sistemática pela Universidade de Fordham em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Fez uma reflexão sobre a encíclica “Magnifica Humanitas” de Leão XIV, tendo dado também uma entrevista ao podcast “No coração da esperança” da Rede Sinodal em Portugal.
Sobre este tema ouvimos recentemente o teólogo João Duque em declarações que agora aqui recordamos e nas quais considera que esta encíclica do Papa possibilita repensarmos o que nos qualifica como humanos.
“Repensarmos, a fundo, o que nos qualifica como humanos, tendo em conta que, neste caso concreto, este tipo de tecnologia, muito próxima aos humanos, nos deixa numa certa confusão, se é humana, se não é humana, e quem somos nós, afinal. Eu diria que esse é o aspeto que mais diretamente está ligado com a IA.
Depois são as consequências sociais, etc., da IA, que são abordadas em perspetiva da doutrina social da Igreja, diríamos, até sem novidade, a não ser a aplicação a problemas concretos que não existiriam se não houvesse a IA.
Relativamente a essa questão antropológica, eu acho que está muito bem formulado, aliás, até na própria conclusão, depois a referência à encarnação, que, de facto, o desafio que temos perante máquinas que imitam tão bem o ser humano, para além de poderem superar o ser humano, ok, mas que imitam tão bem o ser humano, que nos deixam perplexos, relativamente a algumas qualidades nossas que considerávamos que eram tipicamente nossas, nos leva a achar as qualidades tipicamente humanas, eventualmente, noutro sítio, como seja a questão do reconhecimento da própria fragilidade, a fragilidade nossa e dos outros como condição de cuidado também pelos outros, encontramos o específico da humanidade numa região que não era talvez tão habitual, que estranhamente é a região evangélica.
Ou seja, aquele paragrafozinho da conclusão que diz, aquilo que se revela na encarnação de Jesus é precisamente o verdadeiro ser humano, e quem é o verdadeiro ser humano? O vulnerável, o frágil, que ao mesmo tempo está atento e cuida dos vulneráveis e dos frágeis, nisso reside a responsabilidade do humano, essa responsabilidade nunca a poderemos atirar para as máquinas. Ao mesmo tempo, teremos que abandonar de vez uma conceção mecânica do humano, que o humano seja a capacidade de fazer isto, a capacidade de fazer aquilo”, afirma.
João Duque é professor de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e deixa bem claro que “não podemos delegar a nossa humanidade para as máquinas”.
“Não podemos delegar a nossa humanidade para as máquinas e não podemos nós próprios abandonar a nossa humanidade transformando-nos numa imitação das máquinas, nós estamos a construir máquinas à imitação do humano e em rigor o que pode acontecer é nós transformarmo-nos à imitação das máquinas e entendermo-nos simplesmente como máquinas”, diz o teólogo.
Não esqueçamos as palavras de Leão XIV, em maio, na sessão de apresentação da encíclica, nas quais apelou a uma mobilização global para travar o potencial destrutivo da IA, defendendo um escrutínio ética rigoroso sobre os avanços tecnológicos.
O Papa destacou que “não devemos temer a IA”, mas não esquecer a “questão do ser humano”. Revelou que a Igreja deseja, “com humildade e franqueza”, participar no colóquio sobre a IA.
Laudetur Iesus Christus
Foto: Rede Sinodal em Portugal

